Hendaye/Candanchú 4 dias e meio a pé

Sonho ou pesadelo


Tudo Tudo Tudo



Quanto roço se transforma em limo,
Faça o que faça, errei na farsa,
Se, até de mim me tornei sinónimo,
Fosso e palco de uma mesma peça.



Realço o facto de só continuar
Caminho por medo, daquele escuro,
Do lado escabroso, no ir,nã’voltar,
Da cova que, d’ver tremo e esconjuro.



Limei d’mil arestas, senti no casco
A rudeza do martelo e do maço
Só o facho, acarreto por engano



Numa daquelas vielas paralelas
Em que as moradas são, nem caiadas,
Nem, de vê-las, vi despertar meu sono.





Joel Matos

Free Tibet







Takelamagan Shamo 1




" --Desde as antigas cidades de Taskent,Kashgar e Samarkand pelo Tajakistão e ate ao deserto de Taklamakan transportaram-me os movimentos ritmados dos camelos, como berços de bossas, enquanto os sons gluturais ,quer dos homens como dos animais ,me embalaram lentos como navios ,pelas noites caladas ,parando apenas quando o sol martelava implacável a bigorna do deserto."
mãos abertas , em concha , agradeceu , inclinando a cabeça e continuou dizendo:
--"Jo, sou eu baptizaram-me assim nem eu sei porquê, talvez por serem as primeiras letras do nome de meu pai , era um homem pequeno simpático e afável que gostava de charadas,sorrisos e jogos de palavras, pelo que ficou o gosto de escrever , viajar e pouco mais, talvez a teimosia, nisso somos parecidos... penso que sim"
"--Vivi no campo , num sitio completamente diferente deste , dificilmente conseguem imaginar a pequena casa e a escola que ficava longe, mais de sete quilómetros mas a ida e vinda a pé era um acontecimento diário e que ansiava quando em aulas.
As estradas eram pouco frequentadas , quase só por mulas e burros que vinham vender hortaliças e fruta á praça , pelo que as carroças serviam muitas vezes de transporte, sabia bem o ram ram da pequena odisseia escola casa ou vice-versa, alguma conversa a meio caminho com o condutor ou o cantoneiro que se esforçava mas pouco , por manter as bermas limpas de ervas,foram tempos bons que me fizeram sonhar”

Falava a custo , com gestos largos e as palavras que sabia ,olhando as estrelas de uma noite sem lua e o rosto dos seus anfitriões, envelhecidos pelos anos e pelo sol,estes , seguiam a narrativa por não terem nada que fazer , alem de avivar as chamas da pequena fogueira , feita com os poucos arbustos que teimavam em viver na desolação,o chá quente,forte e muito doce servido nos pequenos copos de vidro grosso , aumentava a sensação de bem estar sonolento que sentia.
Aberta ao lado a pequena tenda amante e confidente de muitas viagens convidava ao descanso.
"Iyi Geceler" despediram-se com boa noite ,eram Turcos com mercadorias para trocar noutras cidades,talvez Turfan,no Gobi ou Xi´An ou mais a sul , em lhasa no Tibet.

Há muito tempo que tinha abandonado os lugares onde nascera , percorrendo toda a Europa, indo até ao Bósforo em Istambul e depois mais além , deixando para trás as montanhas de Elburz e do Pamir,tudo o que o ligava aos costumes do seu país , ele era agora um deles,dos nómadas perdidos em oceanos de dunas .

No fundo do albornoz , reclamando luz , encontrava-se um livro manuscrito , indecifrável e um mapa que lhe havia sido oferecido por um velho.

Não compreendia aquela escrita enigmática , mas estava no rota certa a caminho de Lhasa como prometera ao ancião.
também como prometera teria de fazer o caminho indicado no velho mapa , o dos nómadas e das rotas da seda , os caminhos ancestrais dos seus antepassados.
Segundo ele só assim teria acesso aos ensinamentos ou verdades presentes nos manuscritos quando decifrados.

Ao acordar , na madrugada tinha sido abandonado sem um adeus pelos companheiros de poucas falas da noite anterior , mas estava habituado a gente de poucas palavras,afinal também o seu pai era um homem de poucas palavras ,confiava mais em pessoas que falassem pouco.
Tivera um vez um amigo de viagem que lhe disse ser vendedor de palavras,como saudade por exemplo.
Talvez ele ainda não tivesse vendido palavras por estes lados,quando o visse dirá-lhe-ia,pensou Jo.

A senda revelou-se íngreme a partir daí,deixando para traz o deserto , encontrava-se no coração de florestas de cedros do libano e muitas árvores milenares que lhe ofereceram sombra durante as hora mais quentes do dia,as aldeias distavam varias horas se bem que não importasse , porque depois das dunas , sabia bem passear lentamente os olhos por tanta verdura.

Semi-deitado numa bicicleta atrelada a uma mini caravana veio ao encontro dele um ciclista pedalando muito lentamente devido ao peso,rosto e corpo magros como um cadáver, da bicicleta pendia uma concha , pelo que resolveu perguntar de onde vinha:
--sou zé do pedal mas mais conhecido por Andorinhão.
--Venho de Santiago
Respondeu uma voz timbrosa com sotaque do brazil.
pensou Jo como o mundo se tinha tornado pequeno ,o que faria por aqui um brasileiro de bicicleta vindo de Compostela.
--Vou para a cidade de Kashgar ,para lá , continuou dizendo e apontando na distancia.
--Escrevo enquanto pedalo disse apontando um mini gravador preso ao guiador ,tinha a vida toda para pedalar,já tinha ido do Rio a new York de barco a pedal e tencionava atravessar o Brazil em cadeira de rodas. ( 
www.zepedal.com.br)

Ofereceu-lhe da sua comida e beberam chá á entrada de um pequeno lugarejo , num casebre escuro com um nome sugestivo , "Taberna Vendaval,"
Pendiam nas paredes sujas quadros dos mendigos famosos do sítio , pintados por um artista da aldeia .
Separam-se com um abraço para se perderem de vista sob uma ponte de madeira á saída do grupo de casas ,perseguidos sempre por muitos cães.
Talvez estes cães ainda não soubessem que os primos constavam no menu em outras aldeias .

Não sabia Jo que, mais tarde, sem como nem porquê ,nem os cães ladrariam á sua passagem ,como se o ignorassem ,ou se tornasse invisível a eles .

Karim o barbeiro de Kulun 2







Os primeiros dias primaveris espreguiçavam-se por entre os altos picos e os sinuosos trilhos pintados em vários tons de verde que Jo desejava não mais acabassem .
Passou por centenas de aldeias sossegadas , nas montanhas de Kunlun , as portas de madeiras grossas e velhas das casas , abertas de par em par , davam noção de segurança e tranquilidade a quem passava.
Homens mais e menos novos , agachavam-se ao longo dos caminhos , em longas discussões muito gesticuladas ,“bom dia e boa viagem amigo, Deus te acompanhe”……. Diziam-lhe ,continuando as calorosas conversas.
Nos campos e florestas , mulheres de todas as idades realizavam trabalhos pesados mas sem pressas, carregavam às costas feixes e filhos bebes , enxugavam as testas do suor com as costas da mão.
Junto a uma ribeira cintilante como cristal , perto da aldeia de Atush na província de Xinjiang , região de Kizilu Kirghiz ,enquanto tomava um merecido banho , foi surpreendido por um grupo de mulheres jovens , usavam o local para lavar roupa, ouviu risos e olhares furtivos enquanto se vestia rapidamente.

Sem falsos melindres e faces descobertas , uma vez que os homens estavam fora de vista , foi convidado a partilhar o pão espalmado , tradicional e muito saboroso , do seu almoço.

Mais uma vez teve de contar quem era, que o apelidavam de Jo , tinha partido há muito de um local bem diverso deste, passado por regiões estranhas e mágicas, viu curiosidade em grandes olhos escuros, lagos sem fim como nunca tinha visto, chegavam tão fundo na sua alma que sentiu um arrepio e vontade de fugir para ainda mais longe.

Tinha cabelo negro , comprido e ondulado voando com o vento e o pescoço longo assentava num corpo ágil e harmonioso que se pressentia sob o vestido quase transparente.
Chamava-se Zahas significava o mundo , que queria conhecer,era professora.

Perguntou-lhe , com um largo sorriso se o podia acompanhar
(o acompanhar saboreou-o ele mais como fuga)
Sentiu-se tentado , mas com bons modos e um manear lento de cabeça , rejeitou a companhia.

Não só empreendia uma peregrinação solitária , mas também uma espécie de castigo ou penitência pelo que tencionava continuar sozinho.
Ela pediu-lhe então para ficar uns dias e conhecer a família o noivo Karim (o nobre), barbeiro de profissão e a sua linda aldeia.

Não havia dúvida que a aldeia era linda, já com mais características das aldeias chinesas que kirzigues que me tinha vindo a habituar , ate então.

Teve oportunidade , durante o tempo que passou naquele lugar encantado de conhecer as gentes da aldeia, simpáticas e atenciosas e Karim, homem curioso que ambicionava conhecer tudo, viajar e escrever mas que jamais sairia daquele lugar, constituiria família com Zahas,

provavelmente secariam os sonhos , tal como poças de água ao sol de verão mas seriam felizes, esqueceriam eles , que ele alguma vez tivesse passado por lá ?

Todos os dias Karim corria de casa para o trabalho e de volta a casa, mirava as estrelas e as mudanças de estações , dizia-lhe que gostava de sentir o vento falar-lhe aos ouvidos e acariciar o rosto ao correr, pensava melhor quando corria dizia-lhe ele, talvez ainda viesse a escrever esses mesmos pensamentos.

Era um indivíduo estranho e nervoso , se bem que o compreendesse melhor ele , que os vizinhos ,a noiva ou mesmo ele a si próprio.
Ultimamente tinha-se dedicado a dançar, tentava aprender a relacionar harmonia física, musica e alma.
A mãe de Zahas tinha acabado a viagem , ainda nova e o seu pai também tinha chegado ao fim á pouco, sendo ainda grande a dor da separação, restavam-lhe um irmão corpulento Musthafa, despojado e sonhador e uma irmã Nuria insegura e desligada.

Os serões e jantares soavam alegres e bem-dispostos, misturados com álcool de arroz, Karim quando bebia ficava eufórico e conviviam todos numa concofonia agradável até tarde.

A chuva que caía deixou-o pegado ao alpendre de madeira da casa , estava quase dormindo quando um beijo de Zahas o despertou.
Sabia que tinha de se despedir até sempre e quando se pôs ao caminho já não mais olhou para trás, não fosse arrepender-se.
Só de longe, de uma montanha próxima viu a aldeia na distância.

Pensou mais uma vez que gostaria de ver o filho de Zahas e Karim o barbeiro ,mas não voltaria ali mais .
Queria chegar antes do inverno a Tanshan,porque seria difícil passar os rios com grande caudal nessa altura do ano,.
Ao longe , do alto das montanhas ainda avistava a planície de Tarim ,longínqua como os tempos e as vidas passadas.

Acontecia com ele algo de estranho , conhecia já a criança que iria nascer dessa união, sabia-lhe o nome e tudo sobre ele, não quis pensar mais nisso .
Cada dia que passava , tudo em seu redor se ia transformando lentamente .

A própria natureza, os sons das árvores o cantar dos pássaros e o vento lhe segredavam, o embalavam e impeliam nalguma direcção. por qualquer razão desconhecida.

Montanyes de Llum 3





As etapas seguintes tiveram lugar em trilhos apertados
Num sobe e desce ritmado, sempre evitando gentes e os cornos dos pesados iaques carregados com sal junto a precipícios de cortar o fôlego.
A terra poeirenta de tantas passagens desfazia-se sob os seus pés, arrastando-o com ela por algumas dezenas de metros para baixo em direcção ao vazio, no esforço por se manter estável agarrava-se as pedras e arbustos.

A travessia dos muitos rios , eram feitas preso a peles de cabras , cheias de ar ao sabor da corrente ou puxado com cordas da outra margem, tornava-se difícil progredir mas algo lhe dizia que teria de chegar antes do Inverno a Lhasa.

Os sons dos animais , misturados com o “Om mani padme hum” dos peregrinos que se prostravam sucessivamente no pó , ecoavam pelas estreitas e labirínticas curvas do rio.

A zona de Thisha Tsang para onde se dirigia assemelhava-se a um organismo vivo, vales viçosos estendiam-se como tentáculos irrigados por canais cada vez mais estreitos ,onde cresciam rododendros, azáleas, magnólias e árvores de fruto , rodeadas por searas de centeio , no fundo de montanhas áridas.

Tinha passado a fronteira com o Tibete há já vários dias, evitando os principais acessos e as autoridades ocupantes chinesas, misteriosamente entendia bem todos os dialectos reconhecia locais, conhecia caminhos e pessoas que nunca tinha visto.

-Muntanyes de Llum

Disse-lhe em catalão um sujeito de tez ocidental apesar de muito queimado pelo sol, curvado e com vestes de monge cor de vinho e açafrão,.
Apontou jo e as distantes montanhas luminosas já além do planalto Tibetano; caminhou decidido ao seu encontro mas continuou sem mais nada dizer
chamava-se Pepe, sabia-o ainda antes de o encontrar, sob o braço levava o mantras que iria recitar vezes e vezes sem conta nalgum retiro solitário.
Jo ficou parado admirando o maravilhoso panorama de montanhas cobertas de neve , como alvos lençóis enrugados ao sol.

Próximo e dissimulado na paisagem, sobre uma colina coberta de tsi-tog, (flor endémica do planalto tibetano) um convidativo mosteiro, parecia adormecido por séculos de austera contemplação, para aí se dirigiu orientado por sons monocórdios de vozes humanas rezando misturadas com o som estridente de símbalos, tambores e tubas.

Sobre uma grande porta vermelha com adornos dourados estava escrito Mosteiro de Samye e Trono do venerado Pachen Lama, sede bem-vindos.

Entrou e foi como se sempre aí tivesse estado, a sensação era sentida também pelos monges que o esperavam e o receberam com grandes demonstrações de carinho e amizade.
Deixaram-no descansar da jornada numa cela previamente preparada, deram-lhe vestes limpas de monge para substituir a chuba (veste tradicional tibetana com grandes mangas) rasgada e suja que vestia desde que chegara ao planalto, disseram-lhe que o esperavam no grande átrio do mosteiro que estava magnificamente decorado com bandeiras de oração, tapeçarias pesadas e paredes pintadas com bodhisattvas e budhas.

Já reconfortado , sentou-se nos pesados bancos de madeira junto a quatro monges gelugpas que estavam comendo tsampa (manteiga de yac com farinha e cha ) e momos de vegetais, bebendo Bö-cha (chá tibetano com manteiga de yac) enquanto no chão um mandala muito colorido era executado em sua honra.

Um dos homens, Tsharing day (vida longa ) serviu-lhe , com grande destreza ,dada a falta dos dedos das mãos, um copo gigantesco de chang ou cerveja tibetana e contou-lhe enquanto bebiam devagar como tinha subido os catorze picos das montanhas de luz, que sentia profundamente a falta de dois amigos que tinha deixado para trás nessas montanhas sagradas.

Tinha sofrido queimaduras também na cara e no nariz mas disse-lhe não se importar devido ao amor que sentia pelo mundo, à fé inabalável no Ser Humano, todo o sofrimento seria recompensado, seria o seu tributo.

Os dias no mosteiro seguiram-se pacíficos e rituais, aprendeu (cham) dança ritual tibetana com Dyhana, simpática monja do mosteiro e o magro e temperamental egípcio Jan ,dançavam ao som de longas trombetas , tambores , címbalos e durava dias até entrarem em transe , encarnando espíritos malévolos e entidades protectoras.

Nadava frequentemente no lago turquesa de Manasovar-tso com Pepe, bom nadador apesar de gordo e pachorrento.Retirado numa pequena gruta ouvia os pensamentos ao som de cascatas e dos inúmeros pássaros.

Lembrou-se do velho manuscrito , retirou-o da mochila, conseguia agora decifrar facilmente tudo apesar de ser em sânscrito .
Era espantosa a facilidade com que lia e interpretava aquela escrita que via pela primeira vez.
contava a viagem que tinha feito, a continuação da mesma , o próximo encontro com o sábio Milarepa em shang-ri-la, nas montanhas luminosas de Kailsash .
A chegada a Lhasa ,onde o esperava Shri Devi (protector do Tibet ) ,estava tudo descrito, até os seus pensamentos mais profundos, como podia alguém há muitos e muitos séculos , tudo saber sobre ele e a sua demanda .

Diariamente aumentava o seu poder de decifrar escritas, compreender línguas e dialectos, ouvir pensamentos ou ver entidades cavalgando no vento e animando a natureza, como Tara nos 21 diferentes aspectos que apresentava, ou Avalokiteshvara de mil espadas nas tempestades poderosas sobre os vales e montanhas, sentia próximo o despertar.

Estava escrito,
Agora restava-lhe abandonar o retiro e partir na direcção que lhe apontara Pepe quando chegara, as montanhas de Luz.
Acompanhou-o durante algum tempo, era Medico e continuava a estudar pelo que teria de regressar depois de uma semana, o suficiente para aprender mais sobre beleza ,a da construção humana como com Tsharing ,o sacrifício ou com o barbeiro Karim o momentum e a imaginação com a esposa Jahas e O´Briant seu filho,a partilha ,Dhyana a simpática professora de dança ritual e jan,o egípcio (Cham) a harmonia ,com o Zépedal o desprendimento e enfim com todos os bodhisattvas e sadhus pela vida fora, pai e mãe ,musthafas e Nurias .

A pensão Paraíso de Futi Sherpa foi o local de despedida de Pepe, Futi era esposa de Tenzing , o primeiro homem a subir ao Qomolanga ou Sagamarta , a montanha mais alta da Terra , ainda hoje em dia todos os seus filhos , netos e bisnetos fascinados pelo brilho a homenageiam entregando-lhe a vida.

Um velho sherpa cego e de longas barbas brancas falou-lhe, curvando-se e juntando as mãos juntas em sinal de respeito.

- Namaste venerado Gautama o que fazeis por aqui tão longe de Lumbini, de vossa casa?

Disse-lhe que estava enganado, não era quem ele pensava mas o ancião não acreditou :

- Meu Gautama, um velho cego consegue ver melhor que cem mil olhos de outros tantos mil exércitos de homens, fui abençoado pela tua presença e o meu samsara passou a um estagio superior .

Jo pousou gentilmente a mão sobre a cabeça do velho, deixou a pequena casa e tomou uma vereda , à direita do caminho por onde chegara que seguia para Shang-ri-la a montanha sagrada Kailash e a gruta do poeta e Magico Milarepa.

TIBET - nó infinito - 4






Começou por avistar o monte Kailash desde a nascente do rio indus como uma grisalha cabeça de yeti .
Devido á mistura do gelo com a rocha escura das vertentes, aproximando-se, começa por vislumbrar bandos de abutres pairando sobre carcaças humanas , peregrinos prostrando-se no Kailash Kora e tentando completar as 23 parikramas ou voltas.

Na na face sul da montanha, cor de safira viam-se os sinais da luta de milarepa com naro bonchud ,as denominadas escadas para o céu.


Em damding donklang , este inicia a escalada para a gruta mas afunda um pé profundamente na margem do indus, (pegada (shabje) que será venerada por todas as gerações seguintes ).
O caudal do rio aumentara perigosamente e todo o cuidado seria pouco .
O mal em forma de dragão de três cabeças espreitava , teria de se apressar na difícil subida e alcançar protecção depressa , teve de retirar com as mãos algumas pedras que obstruíam a entrada, juntamente com as raízes de uma figueira dos Himalaias , de grande porte .

A gruta parecia uma catedral, pelo enorme buraco escancarado do teto jorrava luz ,que se projectava no chão e paredes vermelhas ,dando um tom vermelho alaranjado ao verde das urtigas que cresciam, e serviam de alimento a Milarepa.

No centro da sala onde o Magico Milarepa meditou por mil anos apenas restava;
O manto branco de algodão e mil repas de cotão saídas do seu umbigo , enquanto meditava, de Milarepa nem sinal, tinha desaparecido como por magia.

O som de Naga espírito da água tomando a forma de serpente tântrica , fascinou-o durante algumas horas até que esta , numa voz muito doce e suave o convidou a usar o cotão para confeccionar asas para que pudesse voar ate Lhasa
Chegaria ainda antes do Outono , como prediziam os Sutras e os oráculos , antes da escuridão e das das sombras inundarem a Terra , antes de Sinmo e outros demónios acordarem.

Prontas as asas, segue o curso do sagrado rio Bramaputra ate à nascente, no topo do shang-ri-la, dá um pequeno impulso e está voando sobre o mundo e todos os oprimidos sem esperança, as gentes sem pátria, sobre as vaidades e sonhos desfeitos, as tristezas e alegrias, já não é mais Jo mas Buddah ou sakya,como descrito nos sutras, acompanham-no
Chenresing vertendo lágrimas de compaixão e Tara nascida dessas lágrimas vertidas pelo sofrimento do mundo, pelo grande amor á humanidade.

Jahas gritou de alegria e dor nas míticas montanhas de kunlun ,enquanto saía de si um pequeno ser, chamar-se-ia O´Briant, o iluminado , ou o raio de luz, o choro daquela criança anunciou-se por montes e vales, atravessou oceanos, correu mundo, voou nas asas de aves e borboletas, pousou em flores, foi sementes e frutos de muitas cores.

Entretanto Buddha e As Duas Acompanhantes Sobrevoam o mundo três vezes , antes de pousarem no Chorten da luz infinita , no piso térreo do imponente Potalla em Llhasa ,entrando e virando a direita ,depois de passarem a sala da assembleia , onde já se encontravam reunidas todos os Bodhisattvas , Buddhas e demais Entidades ,recitando os mantras e lendo em voz alta os sutras , que descreviam a Sua vinda.

Encontrarem Shri Devi , protector de Lhasa , montado num fantástico cavalo branco, este recita om mani padme hum , dirigindo-se a Avalokitshvara Chensing , patrono do tibet e Lord Buddah ,oferece-lhe os manuscritos do sábio Guru Rinpoche que dizem:

“Quando voarem aves de ferro e os cavalos tiverem rodas , o povo tibetano espalhar-se-á pela terra , ocupando o homem vermelho o seu lugar , mas chegará a hora , em que as lágrimas da compaixão , libertarão as nossas ruas da opressão , o povo do tibet espalhado pela Terra regressará , assim como , todos os povos oprimidos da terra serão libertados.”

Depois de lido isto em voz alta,como troar de mil trovões, todos os Bodhisattvas ,Buddhas e demais Entidades voltaram ao seu dia a dia , encarnando aqui e ali , outros seres humanos simples e despreocupados que encontraram no seu caminho.


Jorge sentou-se frente à Tv., Fazendo zapping , cansado do trabalho ,apenas conseguiu ver algumas imagens de mais um filme maçador de Bollywood , a tomada de posse de Obama e arrastou-se a custo para a cama , a semana seguinte seria de ferias .

Sentiu o ritmo nas pernas e a leveza do corpo correndo pelos Pirinéus fora antes de adormecer ,tinha uma vontade irresistível de partir .


Jorge Manuel Mendes Santos
http://namastibet.blogspot.com






jorge santos

Manhã Manhosa






Do torso e de meu poleiro sou manhoso e
De nuvens feito, sou traiçoeiro,
Infame até ao peitilho,
Nem de conto sou,(valho quanto valho)

E, do velho herege e falcoeiro nem vê-lo
Invejo ninfas ,e vejo pombos ,sou d'tombos,

Mas inspiram-me e pronto,todas e todos,
Mesmo os mortos,
No inferno deste tempo longo

Vejo um braseiro plano e um piano
O travesseiro , bolero bolano,

Não tem ,de pranto ,igual
Por ond'ando vulgo eu,  

E dano o mote  forte,
Em noite mundana. 

Minha pena rasgada de meu flanco
Na carreira curta , em de fim-de-ano ,

A minha' pena,è ser termo 

Ficarei por  aí sem poema 
Se m'apagarem a vela
E se m'desenterram em noite inverna
De lua-cheia.
Nas vastas terras de rua 

Em que declaro serem musas todas ,todas
As que minh'alma crua persegue 

Sendo , são todas , todas minhas
Sendo tantas são poucas sempre ,

São minhas manas,minhas manhas
E sendo  são belas ,(elas ,as blusas)

Porque sao ventos sao tempestades
As cavalgadas por onde me insurjo e fujo
Do meu ego se me persistem e perseguem nos trotes
Seja em brisa ou cavalos de vento
Ou voos de aves rasantes
Mas é alma minha sempre e não a vendo

Nem que me paguem nem que o garrote m'esmague
O farol o saleiro e os dedos por inteiro.



Jorge Santos

Florbela



Florbela


Nadas de eternidades, nadas às tonas d’água,
Tudo se afunda, neste t’mor posto em palavras,
Nos tons que me desarrumam, desta tua míngua,
Vestem-me o drama no eco de pressintas sombras.


Estendo um braço, d’outro grudado ao casco,
Fixo no rasto fedido, deste reles luto,
Em que m’iludo, é com ele que me espanco,
Co’meu cliché mastigado já e sem talento.


Vejo-me neste mundo-sem-ti , num fumo insonso,
Creio apagado o meu lume aceso
Nadas, ao luar nas dunas d’aguas , nas fúrias do mar,


Agonizo em fobia, enraizo d’vegetal,
Bela d’flor intemporal, voos de lástimas e cal
Pura, em que me emprestas, esse orgulho d’amar.


Jorge Santos

Nem Que

nem que me rotulem de travesso
que não abdico viver no rio solidão
e o disfarce me virem do avesso
(ainda assim)
nadarei na corrente e turbilhão.

jacaréu na panela d'agua quente
rei preto no tabuleiro de xadrez
serei tudo que o destino invente
e permita nadar na minha desfaçatez

ando barbudo de um lado e d'outro
desta cara de vagabundo matreiro
onde o mar barbeia e cria o mexilhão

fiz um sinal gigante na areia da praia
quando vi aparecer no longe uma sereia
mas ela não, não viu,fugiu da minha solidão


Jorge Santos

Feitiço da Terra

E, leve, o vento me deteve
E depositou ,devagar no areal,
Foi aí nesse vento Naval,
Que vim , p'ra qu'o mar me leve,
Ou me afogue nas praias de Portugal


Jorge Santos



Feitiço da Terra

A Vila de Coca não constava no mapa, lugarejo húmido e circular construído sobre estacarias na beira pantanosa do rio Napo, um afluente vigoroso do Amazonas e local onde um velho autocarro, cheio de galinhas e gente, regressava semanalmente, perante o alvoroço dos Quinchuas e estancava ruidoso em redor de um enorme pau, que servia também de porta-estandarte ao único militar equatoriano destacado naquela última fronteira.
Pressentia-se sempre o início das tempestades quentes que assolavam Coca com frequência, como um pesado pano desciam sobre o palco esfusiante de verde naquele perdido pedaço de mundo ao som de mil tambores e , quando subitamente paravam, restava apenas metros de água barrenta sob barracas velhas como jangadas em oceano aberto.
O baixar das águas era um frenesim de galináceos que corriam como doidos, bicando grandes vermes de todos os feitios na lama que chegava aos joelhos de quem se aventurava na rua.
Aos sons nocturnos não faltavam nenhumas notas musicais, estavam todas lá, e ao mesmo tempo.
Toda a floresta respirava vapor e cheiro a uma humidade constante que dilatava os poros e cansava o corpo.
Dormia-se as sestas em redes suspensas , mas somente até as crianças chegarem da missão católica , já sem a farda estrangeirada imposta pelos padres e chapinharem nus e felizes gritando alto nas águas quentes do rio.
Belén também era um nome estrangeiro,foi dado a uma menina Quinchua que nadava como os peixes , com os Botos brincava todas aquelas tardes encantadas, longos cabelos dourados como as águas do Napo com que se confundia nas noites de grande luar, parecia fazer parte dele.
Sem família, simplesmente apareceu e depressa cativou a simpatia de todos, com gargalhadas alvoraçadas muito semelhantes às vocalizações dos golfinhos que se ouviam por toda a aldeia.
Dizia que era filha de um boto do rio Pastanza e a mãe da aldeia de Belén , daí ter recebido esse nome em sua memória .Talvez pai e mãe voltassem uma noite de luar para a levar , suspirava ela.
As incessantes aguas e as estações desceram muitos rios com a confiança de sempre, Belén tornou-se mais bela e esguia e cada dia mais inseparável do rio e de um Amigo Aymara chamado mayo , jovem que nasceu mudo e vivia num mundo muito próprio, falava com as estrelas , o vento e a floresta, via o horizonte como ninguém mais por ali, tinha olhos verde profundo e a pele cor de terra, Chamavam-lhe feiticeiro e era inseparável do feitiço de Belen como a vida é inseparável da Terra.
Chegaram um dia os engenheiros e as grandes máquinas infernais, diziam que iam trazer o progresso, construíram estradas e barragens, Coca ficou fazendo parte do mapa turístico do Equador, construíram-se hotéis nas grandes árvores, a vila cresceu e esqueceram a sagrada simbiose com a mãe natureza.
Sem aviso numa noite quente de luar Belén desaparece, viram-na ao longe na curva do rio, distanciando-se no luar, cabelos dourados em turvas e turbulentas águas.
Mayo perdeu o verde nos olhos, tornaram-se vagos e cegos, a pele ficou seca, parou a chuva e o rio secou, deixaram-se de ouvir os botos , os caimões na noite e as aves na floresta.
Mayo deixou de falar com o vento e as estrelas, deixou de ver o horizonte verde, agora todos tinham acesso a altas torres de comunicações mas mesmo assim não liam os sinais da Terra, deixaram de compreender o feitiço de mayo.
Mayo deixou-nos a todos, com a tristeza ,os profundos olhos verdes secaram, a linda Belén não mais foi vista,os cabelos dourados, nadando na distancia do rio Napo, ao luar….
Talvez tenha encontrado o pai ,que vivia no Pastanza e a mãe de Belén e ainda nade no que resta do grande Amazonas.
Talvez não, porque Mayo e Belén eram inseparáveis, como o feitiço da Terra e o encantamento das águas…


J.Santos

Caminhada

Terra á vista



Uma tábua do veleiro "Tarou" 
Partiu-se e naufragou no Rio ,
foi em Mês DE Janeiro Impassível,
o mar era rijo,
e o espanhol "malfeito" 
que era  contramestre , 
mandou pregar o traquete no garupes ,
a jorna faltava e o rancho estava rançoso,
marujos sem pão rabujam,
amofinam-se e amotinam-se no convés 
como convém ao corsário corso ,
sobe o lais no mastro e a mezena panda inflada ,
ordena o contramestre coxo que o amotinado MARIJO 
seja posto no mais alto mastro que no barco haja 
,mas não é que o marijo chegando a verga mestra grita 
esfregando o olho cego porque do outro nada via,
"Terra à Vista"



Jorge Santos

Juntei dobras



Jantei sombras de sol,
Bebi de lua , metamorfoses,
Repousei em negros fortes
De castelos , sem lençol
De fantômas ,dormi d'vela,
Velei dragões , drenei serões,
Bebi de todas as taças,
Paixões e ressacas,
Juntei , as todas,
No és-de-luz-feita,
Que me doura.



Jorge Santos

Teima

Teima , teima,
Naperon na mesa,
Torce o tema,
Vinte lobos de fresa,
Nem por isso infonema,
Teima até ao umbigo,
Jantemos de vela acesa,
Serás o meu castigo,
Mas teima , ate ao pescoço,
Como quem me t'ama
E num esforço t'beija tesa
Teima como amêjoa
Flor e cereja
Teima em geleia
No chão palco vão
Na galeria e na banheira
Teima á minha beira
Na minha Escuna d'vela
Na branca esteira
D'ondas grossas
E neste planeta louco
Teima um pouco


Jorge Santos

O "Da chave"


Sou do D'avido o Ferreiro
Que amanheço cedo neste
Prurido desconhecido
De quem não conheço
Sou o da chave fechado
E o do escadote caído
Se ser assim dividido
No que esta-de-certo
Versos do só-dá-medo
Sou eu delfim vaqueiro
D'enredo e folhetim
Capim e sargaço ,vespeiro,
De capa-e-s'pada assino.
Sou vizinho do tanoeiro
E Jorge Santos a temp'inteiro


Jorge Santos

Maré Mingua



De beira e de pão,
De hasa ferida,
Nariz no chão
Saem-me da lingua
Palavras sem guarida,
Sendo,são o meu quinhão
Sinto, da sina lida
Mais do que tenciono
De cor ,nada
Mas de f'rida
Tombo








O nome ver-te ,em cor d'irada


Nas paredes sorridas ,pintadas
Seria verde cor'de s'trada
D'ela quasi saí ,prostrado
Dum mote todo amantamado
Numa noite ,ela queria ver-te,
N'outra ,nada,nada.






Jorge Santos

Urubu

Inspiração


Expiração


Inspiração


Tenho s’critos nas paredes,
Inúmeros versos, não meus,
Nem m’importo dos dramas,
Serem pequenos, nem das lendas,
Serem d’outros, em mentiras
Obscenas e promessas tidas.


Nã’m’importo, s’o poema
For’o meu, só o direi, apenas
Se for plagio, mudo de tema 
E s’esganar, d’agoiros teimo 
E istmos, às avessas , controversos,
Feitos de nadas e vulgos.


Se persigo, no estalar dos dedos,
As siglas, que me revelam,
Lisas, lisas como penedos,
Não de segredos se m’impregnam
E coabito nos regos d’ouvidos,
No fisgo, no nó da garganta.


Se mudo de opinião, no despojo
M’amocho sem tesão , coaxo e finjo, 
Como rã no pântano , debaixo do junco
E no fosso malcheiroso, nas brumas
On’dantes jazia discreto e branco,
Eu venho de lá , no truz-truz d'luz q’aspiro.


Jorge Santos

Manhã submersa em Ais



O corvo







Numa noite de lendas bravias,
Estudava eu devoções velhas,
Batem leve, leve nos vidrais.
Quem será? Pensei, me visitará?
E que toques  tais, tão gentis,
Só isso; e nada mais?

Era Dezembro,Se bem m'lembro 
Jazia  morno,o frio negro, 
Pela  lareira apagada,
Escrevia com morrão ,Leonor,
Para não te esquecer,na dor,
Mas sem nome,aqui jamais.

A mim mesmo acudi, no medo,
Abri de breve o cortinado,
Repetia em desassossego, 
Mais isso que de meu medo
-É um visitante atrasado,
É só isto, sim e nada mais

Já sem tardo e não hesito,
Abro, par em par meus vitrais
Se, Senhor; senhora, mal me sinto,
Eu, dormindo e vós, batendo,
Mal ouvi; abri largos portais,
Noite, noite e nada mais.

Fitei perplexo, receado,
Noite d’amplexo, silêncio,
E  ais,no eco repetido.
O nome dela, vi, no vazio
Desta paz profana. E maldigo,
Isso , só , e nada mais.

Não tarda e ouço,novo som,
Em minh’alma ardendo mais
E vou ver o que está nela,
Por que me distrem com sinais,
Soltos e sempre neste triste tom,
“É o vento, e nada mais.”


Entrou grave e nobre  corvo,
Digno dos contos medievais,
Pousou lento  no busto, alvo,
D’atena,nestes meus umbrais,
Não me fez qualquer cumprimento,
Foi, pousou, e nada mais.


“Tens todo aspecto tosquiado”
Ò ave, migrada dos  infernos,
Diz-me o teu nome,danado,
D’alto desses  teus rituais,
com mais de mil e um séculos,
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Fiquei pasmado  d’ouvir falar,
Inda que pouco clara ,esta’ ve 
Rara pousada no busto,grave
E preto ,no alvo alabastro,
Ave e bicho, d’alarve olhar
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o corvo ficou calado
Augusto e empoleirado.
Perdido,eu murumrei  lento,
“Amigos, sonhos – mortais Todos–
Todos  foram. Amanhã  te’vais”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Que frase tão sabida esta,
Por ser voz  usual , aprendida,
Ou d’ algum don,desgraçada vida
Em tom  se quebrou nesta porta
De seu canto cheio d’ais 
Era este “Nunca mais”.

Mas troçando da vil amargura
Sentei pois defronte dela
E Enterrado na cadeira
Pensei nos agoiros dela
Em gritos de tempos ancestrais
Como aquele “Nunca mais”.

Pensava nisto,olhando frente
A frente a ave ,olhos cravados
Na minh’alma,manta de retalhos
De luzes vestutas, em veludos,
Neles Punha sombras in’ iguais
E Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se o ar denso,como incenso

Vozes Clandestinas


Estas vozes clandestinas,
Em tiras finas ,
em laivos de cifras,
Pisando urtigas e fadigas ,
que não calo,
Não quero calar,
não paro de nelas morar.
Estas vozes clandestinas,
Casas caiadas de mapas
e continentes que não calo,
Mexem quando falo e crescem ,
Estas vozes clandestinas,
Que racham , de maneira grave ,
 a madeira do tecto do meu desaguo , no rio decifrado,
É meu paradeiro de taberna ,
De desordeiro ,
arcabouço grosso e tosco , quando grosso,
Mestiço ,clandestino de poço Mouro.
Estas vozes clandestinas ,
Que simulo em pensamentos,
Não são minhas quando as calo ,
Sinto-as dentro ,
quando ditas aos orvalhos,
Das manhãs  despertas e aos talismãs
Que m'emprestam ,
são finas e espíritas ,
 belas e ditas ,assim , deveras,
Quando moro nelas,
e me revelam as cifras d'elas,
Estas vozes franzinas como luzes de velas,
Estas cifras.

Jorge santos

Somos Cem ,mais um


Comigo somos cem,
Cem mil manifestos em Abril,
Comigo somos cem,
Cem milhões de tufões,
Cem picantes temperos ,
Cem revoluções sem medos,
Comigo os canhões são meros brinquedos,
Os torpedos são feijões,
Os penedos ,  diversões,
Comigo somos cem,
Cem colunas do templo de dyana,
Cem rugas no ventre da mãe,
No tempo em que geramos,
Gentes sem opiniões,
Somos todos e somos poucos,
Mas comigo somos cem,
Mil milhões,
De loucos ,mais um.


Jorge Santos

Sillêncios


Para ouvir a voz do silêncio,
pus-me a gritar aos quatro ventos,
o nome que me dizias baixo ao ouvido,
para ouvir o sopro do vento , encostei o ouvido ao vulcão,
e saiu de dentro , a voz do tempo,
e a tua que sussurrava,
mas não ouvi,
a tua morada,
então pus-me a gritar,
do Vesúvio , em desespero de causa,
e as asas do condor , transportaram a minha voz gritada,
aos cumes negados dos Andes,
e ,onde antes era silêncio,
ecoou , por montes e vales , o teu nome,
depois fez-se noite,
imersa e silenciosa.

Joel Matos

Se fosse eu

e fosse greve seria breve ,
se fosse meu,
seria réu ,
da fome e da greve de fome,
se fosse meu
o respirar e da inspiração, servo
, seria breve e Suevo,
 o ar seria gota leve
,a Terra dura me saberia a doce e a presente
e seria agua de Jo,
seria livre artilheiro
de guerras profanas
e o mundo seria perfeito
o limoeiro daria limões amarelos
e a Cidreira douraria de Chás
,a Videira se cobriria
prenhe de pão de Ló.

.Da gota leve sorvo
o acido e Plácido respingo
,ate Domingo ,
até seu cheiro permanecer
no beijo de milho louro
,que não seja greve
que seja meu e eu seja
réu da fome e seja eu Jo,
se não ,que seja pó de arroz ,
no teu rosto e a tua voz cristal de neve.

Jorge Santos

Verde

Estátuas e guaritas,estradas infinitas,dizei-me,
Dizei-me se na minha vida tudo é verde,
Se é verde a vida ,se é verde a s'trada que garimpo,
Se é verde o vinho , que sobeja na taça e a taça que verto , também é verde.

Se ver-te verde , azul ou vermelho é miopia,
Dizei-me estátuas garridas , lages e avenidas,torres,
Se vejo verdes , guaritas e torrões castanhos,torreões , castelos,
Quando verdes seriam teus olhos claros,e cabelos.
Verdes são meus sonhos guardados,verdes são minhas mãos,
Verdes os meus sonhos,verde , minha pele escamosa.

Verdes as minhas princesas à espreita,
Não têm olhos verdes nem castanhos ,são olhos
De todos os tamanhos ,seguem-me nos sub terminais,
No metro suburbano, nos subterrâneos ,nas masmorras,
Dizei-me princesas se verdes são meus olhos,
Escamosa minha pele e ventosas

 Jorge Santos

Finjo que Fujo



Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo,Não, Eu simplesmente sinto Com a imaginação,
Não uso o coração , não lamento o que não escrevo,
Nem sinto flores demais sair desta mão,
Desta raiva do não sentir, mais infiel no dizer que a mim,
Dizem que finjo ou minto no que risco,
Ou imito ,mas sinto um resto , de purpura seda,
Que me cobre a razão
E , pelo sim ,  pelo não,
Escrevo no correr da mão.

Jorge Santos

Sei

Sei que posso
passar por Aí e
 levar um amigo,
 um abraço
 pendurado no pescoço e no braço
não é obrigatório  gostar de poesia ,
mas ela está sempre presente ,
eu sei ,
sei que posso passar por Aí,
levar comigo o  mais simples gesto ou palavra
que possuir, a pretexto de tudo e de nada,
ela pode ser desfraldada
como bandeira
ou arreada na haste da derrota
mas eu sei
que a podes levar contigo
e a posso  trazer comigo,
no bolso,
 por mais simples que seja ,
vale o esforço.
eu sei ,
eu sei que a palavra não é nossa
nem é gaga é nao é nada
se não for dada
e se não for verdade/mensagem ,
se não for leve
e ao mesmo tempo pesada.


Jorge Santos