A hora é do tempo a gorra



Todas as minhas horas são eleitas p’lo uso.
Por me permitirem um usar diferente
Nas horas cujo fato não me serve de refúgio,
Quer me fite ao espelho, de lado ou de frente,

Uso de fato e gravata que serve a quem se chama vazio,
Vago, inexistente e então esse, sou de facto, eu.
O facto é que as horas sendo um axioma de Descartes
Todas as horas minhas, serão viúvas, ou eu; delas órfão.

Nem penso se sou real pra elas, ou se real existo,
Sei por certo descartar Descartes e visto o tempo,
O fato e as luvas como um tal Maquiavel Fausto,
Ou Abias Rei, tendo na casula, ao invés; o cruxifixo,

As minhas horas, feitas são, todas de simples uso,
Porque os sentidos que uso não são medíveis,
Nem medível é o céu, que imagina um cego,
Apenas pelo tato, sendo esse lato teto, o meu lema,

A mesma desilusão sem fim, apesar do uso diferente,
E do tema que colo ao peito, em cada hora…
Não estranho pois, se na minha alma ausente,
Não sobrar atenção, pras honras no balcão desta Terra.

Com as horas, é tarde e decresce a aptidão de viver
Entre gente, como se vivesse por viver, sem nada à frente,
Por ser tarde e a hora não crescesse por dentro da noite
De mim, que tenho a alma fora e, a hora é do tempo, a gorra.,

não minha...


Jorge Santos (02/2014)




Se eu fosse ladrão roubava.


                                                                                                                                                                                              bosch hieronymus


Se eu fosse ladrão roubava,
O amor a quem não me dá nada.
Se eu fosse ladrão roubava,
Pão e seria eu que o dava de volta.

Se eu fosse ladrão roubava tudo,
A quem não dá... nem me dá dó
E se fosse pão roubava-o só,
Pro dar ao pobre, ao lado da porta,

Na volta, só deixava a tristeza cá,
Na beira do mar salgado,
Pros tristes deste Condado,
Coitados, não morrerem sós.

Morrerem com os olhos,
Pregados por pregos ferrugentos,
Do sal nas tristezas

Que semearam cá e lá.

Jorge Santos
(http://namastibet.blogspot.com




Talvez o sonho do mar seja o meu pensamento.

Tenho horror ao que vou contar
Sobre o mar, costumava sentar-me
Na orla como se fosse num banco
E debruçava-me e balouçava
Nos braços que me adormeciam,

Fosse real ou não aquela sensação,
Envolvia-me o pensar, esquecia
A ideia do medo, depois separava-me
Do corpo sem deixar intervalo…
Tenho horror ao que vou contar,

Mas sinto necessidade de ter medo,
Para que possa recontar a historia
Dos meus súbitos sentimentos.
Quero contar a razão do mar ser triste,
Porque nada se parece com ele,

Nada é tão profundo e desmedido,
Porventura a vontade de me afundar nele
E isso apavora-me, ele e a espuma,
Cantam-me a morte por esclarecer,
“Quem sabe o que está no fim dela”

Sinto uma espécie de longe, no acordar
De quem recorda junto ao mar,
Sobretudo sem saber de onde vem
A tristeza dos sonhos que se sonha
P’los fundos do mar.

Quem sabe o que está no fim dele,
Acaso algo que nem Deus permite
Que se saiba,
Talvez o sonho do mar, seja
No fundo, o meu pensamento.

Jorge Santos (01/2013)

Curtos dedos



Amarro-me eu, pl's beiços 
E a mim mesmo, plas cordas que teço, 
Não faz mal que sejam pequenas ou finas, 
Assim tenho os mesmos lugares 
No mundo onde me perder 
E o fôlego todo, 
Pra tecer coisas mais duráveis, 
Qu’estes curtos dedos.

Sei que preciso de Primaveras em meu colar,
E do calor do Verão pra derreter o gelo,
No olhar e no beiços aramados,
Que resistem e me prendem a estas paredes
De cal e gesso, brancas como neve de gelo,
Duras do arame em estuque...


Jorge Santos (01/2014)


Noção de tudo ser menor que nada




Noção de tudo ser menor, que nada
Ser - A lua brilhando inchada,
O ventríloquo coração
A compensar a excessiva exatidão,
O embarcar com bilhete só d’ida,

Pro lado vazio dest’alma,
-Fugir de tod’esta gente,                                                        
Como sonho desinteressante,
Que mal se recorda,
Como um cão sem dono nem ladrado,

Fui passado sem presente,
Vagão passando rente
Ao suicida, a ironia do falhanço,
-Sendo eu, em tudo o que faço,
Causa/efeito do falso sentido.

Sou de tudo num dia e nada
Noutro, senão palhaço,
Desses a que se dão corda,
Na grotesca marcha do corço.
Sou forcado de curro e cornada,

O ventrículo e a laça aorta,
Servindo literáriamente de forca,
O sentimento de natureza morta,
Que foi no voar, uma ave branca,
Quando esta, o voar abranda…


Joel Matos (01/2014)

Poeta acerca...




Pra’lém do que há, o mais certo é não haver
Mais nada a juntar ao que já existe…
Ideia absurda - a realidade ser equidistante,
Da visão dum louco, quanto do meu ver.

Em encontros casuais com a realidade,
Parecemos formar um par perfeito,
Funcional, diria até, um casal de respeito,
Que acaba discutindo como qualquer outro.

Coloquemos, entre quatro paredes, sem ar,
O quadro a óleo, de uma pintora morta, praticamente famosa…
Continuará abstrato, na anónima estrutura do pretenso lar,
Como uma peça morta, do que se pensa ser- A NATUREZA-

Assim somos, eu e a realidade, descremo-nos,
Mas procuramo-nos mutuamente, nos pensamentos
Um do outro, ansiosos, como tudo enquanto espera.
Apenas não creio que seja efetivamente verdadeira

Ou quem diz ser, estando eu um passo distante dela.
Pra’lém do que há, haverá sempre, uma versão outra
Do real, escarrapachada nos céus, feita linha ou tela
E um poeta acerca, que no fundo, tudo o resto ignora.


Jorge Santos (01/2013)


-e o sonho ter-me-á sonhado -


minh'alma se mede
em centímetros e quadrados
cresce num vaso em rede
feita com braços

se estendo o braço
fica mais longe
o eco 
e a alma foge

mais um centímetro
mais um metro
embora nada faça
pra qu'ela cresça

nos meus rasos braços.
minh'alma cresce
a olhos vistos
embora não haja quem a meça

cresce numa rede feita 
de rosas, teus braços..


(Jorge Santos)

Hoje mudei...


Livre para cruzar os céus de Deus
Com asas que dos céus Ele me deu
Veludo azul e manto verde
Imenso mar,vivo por sorte
Navego nuvens e o ar
As minhas asas não,
Não são de cera, eu sei
Eu trago de tudo em meu olhar
O acreditar sem ver
E a solidão da Morte
que há-de vir sem eu saber
sou um homem voando à sorte
livre para cruzar os céus de Deus

(Jorge Santos)

Com'un viciado

Sou viciado em papel e caneta

é minha a janela e o vento
são a folha de caderno
escrita-ironia do destino.
Deixei esquecido
o meu lápis amarelo e preto
no parapeito
- o melhor de mim perdido-
Certo de que tudo é invenção.
Que tudo é menos que o ventania
menos as folhas de caderno
que pousam no chão...
(ironia do destino)

Jorge Santos

Hostil o tempo...



"hostil o tempo,insistente vento,soprando louco,na pressa do mundo.preto o túmulo,e os coros do lamentoo homem de luto,hostil o tempo"
E sinto que não aconteço realmente
Como as fendas do corpo cujo e
Suspeito trago
Tatuado com ditos de tantos e todos,

"Arte não acontece, contem-se,- ou tem-se ou não tem-se-"