Se soubesse...

Se soubesse que amanhã morria
calcava os pés nos livros que não li
e nas lembranças do que não vivi,nas utopias
dos outros que apodreceram antes de mim

se soubesse que amanhã morria
chorava a esperança que perdi
um pretenso dia, por aí..


O que sei...





O que sei do medo ?

Nem os Ogres e os dragões conhecem...
Embora eu lhe ouça a passada,
Não os receio, nem me vencem...
Não sabem eles que me perderam,
Onde o inferno se encontra
Com o meio do céu, na floresta negra... 

O que hoje sei sobre a dor,
O arredio e o horror do Inferno frio,
Só as sombras e os escombros
Conhecem, são palanques
De Mestophles e dragões demónios
Que não me vencem,não me vencem...

Tudo O que sei do medo,
Ouço no passar do vento...
P'las sombras que povoam,
O logradouro do meu pensamento.

Jorge Santos





Feito de ti...

Deus, que é feito de ti,
Se é que existes ou me ignoras,
Pois quando dou por mim,
Olhando o céu, sem estrelas,

Sinto um total desalento,

Sorvi o vento...

sorvi o vento...
sustive o tempo
dormi entretanto
no cárcere breve
do corpo...

Diz-me

Diz que entendes
O que se passa, entre mim
E o precipício
Sabendo-nos às vezes
Unidos por um fio-de-prumo
Como a noite e o final do dia

Diz-me porque pareço particípio
passado Tara perdida
Inércia sem-fim 
mar morto
Diz que entendes
o dia meu
assim o sol posto..

O risco do voo....


É um risco, por onde vou, decerto
Não preciso ir, mas alma bravia e cigana
Não tem estadia certa, quer chão
Duro como almofada e sem fronha,

Brando, o corpo, sem dúvida (decerto)
O pó da estrada o tornará bruto
E deserto, tal qual aragem seca do bocejo
De equilibrista antes de cair morto

No chão. É um risco, por onde vou,
Decerto vou encontrar das mesmas
Estrelas com que povoo a imaginação
E os povos das fábulas e das lendas…

Se esperares por mim, voltarei,
Com todos os sonhos, num saco gordo
Dessas estrelas, com que eles se fabricam,
Noutro mundo.


Jorge Santos (05/2013)

Quando me deito...



Quando me deito, é uma traição
Que faz a mim mesmo, o corpo,
Escrevo poesia pra não esquecer de pensar,
Como se fosse este, dum outro,

O pensamento. Esqueceria o eu, de qualquer modo.
Se escrevo de dia é pra não esquecer
Coisas que esqueceria
Doutro modo, sendo noite,

Poder-me-ão,
Roubar deitado

Deitando-me, eu morro um pouco,
Porque dormir é não pensar,
Deitado roubo do sonho o pensar
Come se fosse o pensar d’outro

Quando me deito é uma traição
Que faz a mim mesmo, o corpo.



Jorge Santos (04/2013)

China 2013 (4.500 km de bicicleta em 30 dias) de Xi'an a Bishkek (Kirguistão)




Quarta-feira ,17 Maio de 2013  em Setúbal

Será a primeira vez que irei percorrer um tão grande número de quilómetros e em tão poucos dias, pelas minhas contas 4.500 em trinta dias, quase a distância de lisboa a Moscovo num mês, ou seja, terei de percorrer 150 quilómetros por dia sem descanso durante esse espaço de tempo.
Comecei por pedir a aplicação do visto para a China no passaporte (disseram-me na agencia de viagens onde comprei o bilhete de avião que não seria necessário visto para o Quirguistão) demorado e burocrático foi este visto, fazendo-me sentir como seria difícil o percurso num dos maiores países do mundo.
As próximas fases serão o fazer listas o mais concisas possível dos objectos a transportar, arrumá-los e ir retirando tudo, mas mesmo tudo quanto não for absolutamente necessário a sobrevivência diária, a roupa, à parte os calções almofadados de ciclismo, será comprada nos mercados locais para me parecer o mais possível com os habitantes de cada região ou cantão (cada um destes do tamanho de países como a França, a Espanha ou a Polónia)

Lembro-me, apesar de terem passado tantos anos, de uma série de televisão que me iludia os olhos e aquecia como a areia das dunas, a minha alma e, apesar de ainda ser a preto e branco  lembro-me dela como se fosse já a cores.
Ah …e aquela música de Kitaro ,emocionava-me pela magia do som dos guizos e dos cascos dos camelos, (chamava-se "The silk Road")
Kitaro era o musico Japonês que compunha a banda sonora da serie e teve aquela musica a faculdade de um despertar para o oriente e para a mítica rota da seda, algo que era, nesse tempo, tão longínquo, como ainda o é hoje.
As cidades chinesas e todas as outras como Samarkand ,Antioch ou Aleppo, ao longo desta rota milenar modificaram-se mas espero ver ainda um ultimo vestígio das imagens com que aprendi a conviver faz mais de 30 anos, na serie que esperava fielmente ver no minúsculo ecrã de televisão, um aparelho ligado a uma bateria pois não possuíamos electricidade em casa.
Isso era coisa de meninos ricos e a minha casa era no campo, quase sem um caminhos nem agua canalizada ou casa de banho como hoje talvez dificilmente consigam imaginar.
Lembro-me da inveja que tinha dos outros meninos da escola, falavam de ouvir música num gira-discos e eu nem sabia o que era tal coisa.
Talvez por isso sinta mais afinidade com estas civilizações do que com o ocidente dito civilizado e homologado.
Talvez por isso reconheça estes povos como meus familiares e sinta maior segurança no meio destes, que numa mega-metrópole de 10 ou 20 milhões de almas sem os sonhos ligados aos meus e entre eles próprios.

(continua)




China 2013 (4.500 km de bicicleta em 30 dias) de Xi'an a Bishkek (Kirguistão)

Reinvento do o ciume..


Como disse anteontem, o ciume tem 
O condão duma pedra verde azul torpe
Há que transformar em tição, tudo
Quanto nele toque; pode ter arte 
Se for de raiva feito,
O ciume rubro, em vez de vazio, ralo
E mole, nulo como eu...

Como te disse ontem, transforma
O ciume teu, em ferros acesos,
Tições e carvões quentes.
Perfura o poema meu com a espada,
E o vão  que contem desse azul verde ciume
Tenta... vamos, fá-lo em tição aceso

Reinventa o ciúme ..incendeia-o...

Jorge Santos (04/2013)