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O fim dos tempos



Fazem-me falta as palavras
Que não entendo,
Para escrever cartas
Sem remetente,
Faz-me falta a inacção,
Para não me encontrar em cada esquina,
De rua e quarteirão
E não ter de falar,
Da saudade que dizem sempre vem
Ou da chuva que não cai porque se esqueceu,
Faz-me falta o abismo
Estremo.

Joel-Matos (12/2010)
http://namastibetpoems.blogspot.com

Dó,Ré,Mi...



Ut queant laxis,
Resonare fibris,
Mira gestorum,
Famuli tuorum,
Solve polluti,
Labii reatum.
Sancte Ioannes



"Para que os teus servos possam cantar as maravilhas dos Teus Actos admiráveis, absolve as faltas dos seus lábios impuros".

Tu (Do) maravilhas em actos, deixando
Rezar teus filhos, fazendo
Milagres e de teus gestos
Fazendo leis e nas faltas
Solvendo a pureza que no
Lábio destes reste,tudo em nome de-
Santo Ioanes
Jorge Santos (12/2010)
http://namastibet.blogspot.com


Há-de-vento



Há-de vento
O que há-de calmaria,
Há-de noite
O mesmo que há-de dia
Há-da treva usurpar a luz do'dia...


Jorge Santos (12/2010)

Altos Vão....





Os nossos corações vão altos...sem quem os alcance
E caem em cacos...como se louça fosse...

Jorge santos 

Dane-se



Dane-se o sonho, dane-se o dia
 Se há-de vento o que há-de calmaria
Há-de noite o mesmo que há-de dia
De noite os meus olhos são palcos do que imagino
De dia Iludo-os com aplausos
E fechos eclair p’ra não entrar a luz da rua
E a gritaria  

Jorge santos

O templo onde eu ainda não vivia



Num tempo anterior ao tempo
em que o eco meu ainda não vivia
e o espelho ainda não era invento
mas já nascera a lua e o astro do dia
vivia um mago que falava com o vento
num templo que ainda nem era templo
do tempo barbeiro que aí viria... 


Jorge Santos

Ela ia e ele vinha



Ela ia e ele vinha,
Olhavam-se e sorriam,
Ele ia e ela vinha,
Como que se perseguiam,

Isto duas vezes por dia,
Ela ia e ele vinha,
Ele vinha e ela ia,
De tarde e de manhãzinha,

Nos olhos fundos traziam,
O nascer e o pôr-do-sol,
Pareciam velas que acendiam,
Na manhã e de tarde apagavam.

Ela ia e ele vinha,
Ele vinha e ela ia,
Até que um dia,
(Bem à tardinha),

Unem-se num longo beijo,
E daí prá frente,
Ele ia e ela ia,
Ela vinha e ele vinha,

E foi assim sempre, até que a morte,
Veio, de mansinho,
E levou, primeiro um,
E depois, o outro,

Ele não veio... mais,
E ela também... não mais veio.

(mas continuaram os filhos e netos
Sorrindo e percorrendo os mesmos caminhos )

Jorge Santos (16/11/2010)

Solidão



A solidão
Infiltra-se-me nas veias
Como emigrante ilegal,
Possuo-a no recanto das narinas e
Não apenas no instinto
E prevejo-a na saudade,
No tom da voz suave, que não me pertence,
E no suposto sonho, que não venço,
(Talvez por ser eu tão pequeno
E violento o meu abraço)
Mas dou o nada por tudo,
E a marcar o rumo de minh'alma
Sem fundo, há um sólido prisma
Negro,negro preso a um recado,
(saudade do que não sou)
Que mais parece pleonasmo,
Quando distorce o brado
Da palavra que amo
E me engasga se a mordo
(solidão)





Jorge Santos (11/2010)

Roxxanne...







Roxxanne brotou alterada, sem voz de pata ou gansa, Alaranjada ao invés de tutti-color , como gansa da quinta do parnaíso , da dita dimensão que se preze,de pescoço alevantado, longas plumas laranja e penachos verdeosos. Tomou-se logo de manifestas e imediatas ostentações depois de se mirar, breve no lago, pela primeira vez . No galináceo arrabalde, levantou-se longo e lesto burburinho, eram tantos os aplausos e ovações com que as outras lhe prendavam a vaidade que bella Roxxanne tomou essa magnificência como verdade absoluta e magistral.


Foi num fim de tarde, um por sol de igual grandeza Cobiçou e desde logo namorou daí, do poleiro, (ela ambicionou plágiar o brilho solar). Desfez-se Sol em claridade solestícia em longes e alturas de multicores nos céus do arco-íris orquestrando minuetes e tons de édens celestais.

Bella Roxxanne inflamou-se, os penachos laranja tintaram-se ,solarizaram-se e radiaram tal brilho que toda a capoeira saiu em alvoroço.Foi o suficiente para queimar as penas que a cobriam ; ficou sem pena alguma, tapada por uma pele burbulhenta e cachuchos , inchada até à ponta do bico que mais parecia um pato-bravo e mudo.

Fugiu dali espavorida, perante o susto, toda a quinta do parnaíso ficou escarapantada.

Não conseguindo encarar a luz de frente esconde-se entre a folhagem de uma grande Magnólia de folha caduca em Shang-ri-la, tinha–se transformado em filha bastarda do sol, os raios que outrora lhe davam vida açoitam agora a pele nua.

Como sabem, shang-ri-la é um reino laranjado em terras de laranjais e perto do território das nogueiras e dos Azeites na Provinciana Sadina.

Caiu a noite e disse-lhe a lua ,já cheia da melancolia da ave nua:

-Todas as flores já choram ,vês aquela rosa amarela encharcada em lágrimas ? Até eu já estou branca e baça de triste.

Vê... Roxxanne , como brilham as estrelas, algumas mais que umas outras, destas ,várias foram gigantes e agora não passam de anãs brancas ,todos nós tivemos oportunidade de brilhar pelo menos uma vez na vida ,temos de aproveitar ,como tu ; usar esse brilho, sim, mas fazê-lo durar o mais possível, como um archote na noite,  quando este se apaga cedo demais podemos ficar às escuras e perdidos , sem luar, tens de felicitar-te por teres brilhado ,muitos nunca o fizeram com medo de se exporem, amanhã , outro galináceo será premiado com elogios e também pensará igualar o sol , eu , por meu lado , sou apenas um espelho ,nunca pensei , em ser mais brilhante que ele, contento-me com isso, mas tu ; tu és uma ave magnifica , porque sonhaste o sol.

Todos nós somos filhos do universo e de uma verdade inconciliável ,O Caos,  pó das estrelas somos  , já todos ardemos em fornalhas como o sol ,até eu própria  e lançados no espaço , como filhos  e viajando , para SEMPRE Nele.

Mais serena e confiante , a ave do Parnaíso , cantou pela primeira vez e a mais bela canção  alguma vez ouvida, viveu feliz em chang-ri-la ou em qualquer outra história dos Homens



JORGE SANTOS (2008)

Núria's Ring



Como descrer das fabulosas noites
A destapar céus, vestidos negros
Cravados a buracos de alfinetes
Sem neles mesmo admitir prodígios!?





Nuria’s ring


Reza a historia ,que no reino de Devon aconteciam estranhos encantos, vivia na floresta de Dartmoor , na mais recôndita clareira ,numa simples cabana, uma feiticeira, Núria ,cujos encantamentos , soprados de ouvido em ouvido eram sobejamente conhecidos , todos os gentios sob o domínio do soberano Conde lord Wellington ,apelavam a Núria para conseguirem sobreviver , O Conde era um homem insolentemente rico e gordo devido aos impostos cobrados aos vilões e gentes do condado.

O medo reinava em Devon, empobrecidos e tristes d’alma solicitavam a Núria , a feiticeira que , com o poder de um único dedo enfeitado com um grande anel de cristalinos diamantes afastasse o triste fadar dos rostos desta pobre gente, quando regressavam às aldeias vinham felizes,traziam sacos com comidas e nas bolsas algumas moedas de ouro,sabiam que não poderiam arrecadar muito ouro e riquezas sob pena de não conseguir regressar à floresta com o coração puro e não poderem mais admirar os encantos feitiçados da liberdade.

A floresta coriscava de brilhos, aos seus olhos encantada,ali pendiam das árvores lianas em ouro,ali havia esmeraldas nos ribeiros,cascatas de prata ,as gotas de água cintilavam de diamantes, topázios e até os céus eram dourados(tal como as cúpulas das igrejas de Lord Wellington), mas só douravam para quem entrava no retiro com o coração aberto e a alma pura, os esbirros do soberano e os cobradores de impostos do reino tinham medo das escuridões,dos sortilégios, das velhas árvores negras e dos personagens sisudos (pensavam eles) que por ele circulavam,não se atrevendo a passar além.

Decidido a pôr fim aos largos sorrisos dos seus súbditos manda o Lord matar a feitiçeira,pede a um grande número de homens que se dirijam à floresta de Dartmoor e cortem o dedo de Núria como prova da sua morte,dará por esse feito uma larga recompensa em terras e castelos de nobres caídos em desgraça,era seu hábito matar todos os que se lhe opunham,até mesmo seus pares.

Assim fizeram os seus homens mais valoroso , apesar de grande parte deles ter desertado antes de entrar na floresta. Depois de assassinarem Núria , cortaram-lhe o dedo mas o anel foi cair numa raiz de Mandrágora.

Ao chegarem ao palácio , Lord Wellington atira desdenhosamente o dedo para o jardim , indo ficar num canteiro de flores, pensou ele ter-se livrado definitivamente da feiticeira.

Ainda hoje, o dedo espetado de Núria ,envolto em belas gotas de orvalho , aponta todos os palácio , de todos os Lordes e corruptos , é uma praga magnífica, existente em todos os belos jardins, de todos os reinos, todas as cúpulas douradas, de todas as igrejas e todos os palácios, construídos com suor e os impostos dos pobres, permanecem apontados por um dedo e hoje, ainda ninguém,sabe ao certo, qual foi o segundo feitiço, que Núria rogou, a todos os déspotas deste mundo.

O anel Ficou na raiz da Madrágora,(daí a semelhança com Núria) e continua , a encantar as florestas ainda não devastadas e urbanizadas, uma vez que,os seus gritos , ao ser arrancada à Terra Mãe , em noite de lua cheia , matam qualquer construtor ou condutor de bulldozer que o intente, apesar de todos estes usarem maléficos negros cães , descendentes dos soldados de Lord Wellington que ousaram entrar nas MINHAS florestas encantadas e... Meus domínios.



Transhumante (guardião de paz verde)



Jorge Santos (2008)