Strava

Quero fazer contigo ainda mais primaveras...


"Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas"....: 

".... Quando não te doeu acostumar-te a mim, 
À minha alma solitária e selvagem, 
a meu nome que todos afugentam. 

Tantas vezes vimos arder o luzeiro nos beijando os olhos 
e sobre nossas cabeças distorcer-se os crepúsculosem girantes abanos. 
Sobre ti minhas palavras choveram carícias. 
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado. 
Chego a te crer a dono do universo. 
Te trarei das montanhas flores alegres, copihues,avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos. 
Quero fazer contigoo que a primavera faz com as cerejas. 



Na orla da noite

"Na sombra da noite, fachada onde as estrelas imitam luz,
 Nela venho mascarado, única coisa minha igual frente e verso,
Que tomo de corpo e alma e faço parte desse seu vulto denso
Onde eu me perco e de mera sombra me torno num outro e noite dentro também,
 Mas sem sonhos por perto, que não sejam as estrelas paradas em cima de mim
 Nem sou nem mais fui esperado na orla da penumbra sem fim"

Jorge Santos
04/2010

Pra' Sempre


pra'sempre o nosso mundo inquieto 
e"diferente"há-de existir... e bater 
pé no palco d'alguma vivência anterior 
"capaz de derrubar de horror" 
quem é como nós mas não vê amor e fé 
"em tudo o que faz"em tudo, 
"o que sente"nos bons espíritos 
velhos,velhos de adolescentes 
que não cresceram e ficaram 
"pra sempre","pra sempre" 
presos na Terra do Nunca...pra sempre..

. 

Jorge Santos (até sempre)




Faro/Cantábrico

Faro/Cantábrico
Bamboleando por Alentejos Sadinos  e águas salobras depressa o comboio ganhou nas curvas  as planícies verdes e solestícias com destino a Faro ,chegou às previstas 17:30
Foi hora de montar a bicicleta em sentido literal porque a transportou desmontada como mandam as regras e fisicamente também pois foi subindo sempre em direcção A barranco do Velho onde chegou  de noite, tinha de descansar e nada melhor que um alpendre abrigado da chuva miúda e impertinente que caía e caía sem dó, não havia a prevista e habitual escola “antigo regime” mas um centro social serviu o propósito que era simplesmente dormir.
Pelas seis Horas da madrugada  inicia-se o percurso incerto que o levaria até ao outro mar bem mais a norte ,o Cantábrico, lado oposto da Península e a cerca de mil quilómetros de distancia , em outras etapas.
O sol descobria uma esguia silhueta de ciclista que se projectava agora para a esquerda e abrangia toda uma serra silvestre e verde  embora por curto espaço de tempo, o Caldeirão era incandescente e habitualmente seco como um deserto e vermelho como o fogo  que insistia em labaredas e persistia anos e anos a fio esta desertificação, os cheiros agora eram de estevas e humidade fresca, até perto do meio dia e aí já sem a referida sombra.
As cegonhas perderam o nomadismo e nestas terras malditas e ditas sem sombra não trouxeram mais almas nem devolveram as emigradas nem as ninhadas destas trouxeram filhos, ficaram os velhos e doentes mirando horizontes planos sem vivalma.
Era dia dos cravos (2010) mas as revoluções esqueceram-nos , ficaram-se por comemorações vazias de significado ,por todas as localidades onde ainda havia gente e trabalho as autarquias empenhavam-se em  manter  a chama  tardia.
A distancia até aos cem quilómetros pareceu curta, as pernas respondiam á frenética vontade de pedalar, parecia que o destino estava ganho, faltava metade e o acumular de esforço iria tornar-se dilacerante para os músculos ainda recentemente repousados por um inverno assaz longo .
A estrada nacional 2 em mau estado no distrito de Setúbal baixaria a media que teimava manter-se teimosamente nos 22 km hora, depois ainda ficava no caminho uma pequena serra já no fim do percurso, Monfurado estava posta ali mesmo antes do final desta etapa em Montemor-o-novo e parecia um interminável obstáculo.
Chegando ao termino e esticar-se na relva do pequeno jardim à entrada de Montemor avalia o que já fizera em termos Peninsulares, desde a tentativa de atravessar os Pirenéus do Atlântico ao Mediterrâneo no mais curto espaço de tempo ou seja 14 dias (faltavam-lhe 10 dias), O caminho de Santiago Francês em sete dias (faltavam três dias para finalizar), planeia a continuação até Chaves e ao Cantábrico mas não sem duvidar um pouco da sua boa sanidade mental que o levava e ele e ao corpo até ao limite, sem razão ou recompensa aparente que não fosse aquele sentimento de “dever”cumprido,mas qual dever? deveria isso a ele próprio ?(por egoísmo) ou sentia-se na obrigação de superar todos os outros “eus”que o afligiam e diziam ser impossível,contrariava toda a família e até os músculos, a solidão , o medo que sentia e tentava enfrentar, restava-lhe saber -em prol de quê ? E porquê!? Talvez nunca obtivesse resposta a esta pergunta,
Entretanto estava de regresso a casa, á família, ao conforto e ao trabalho, rendido momentaneamente, mas não vencido, as serras, os caminhos, os trilhos e as paisagens, as falésias de cortar o fôlego ainda esperariam e seriam suas e ele faria parte delas e ele sonharia de novo e sempre o sonho de ser parte da natureza e partilhar o mesmo ar que esta respira
O destino dele era ser Transhumante
Jorge Santos / Transhumante
Abril 2010

Adverso

Adverso 

Ou controverso


O verso que fiz (meu)
Barro queimado,
Nem o vendi caro, 
Na tenda, mercado,
Verso mineral,
Baralho marcado
Nã ‘ baralho mais
Se não o sentir,
No forno, a arder,
Estalar no sangue,
(dos meus dedos, dez).


O verso que fiz (meu)
Foi alugado,
Ao mês e barato
Algures furtado
Por um gaiato,
Na loja do lado
E; passo em falso,
Cai na sarjeta,
Ficou molhado,
Não quero mais,
Versos escorridos
(pr’ós lamber na sede)

O verso que fiz (meu)
Dito por maldito,
Bem m’orgulho se,
Rasgado e roto,
Repudiado, mas,
Na estante, vivo…
Melhor, Se estorvar 
Por nã’estar morto,
Apesar de plebeu,
É porque é meu,
E é controverso
(deix’ó falar).


Jorge Santos

"A minha pária é e língua Portuguesa"

Pátria minha

A minha Pátria


“A minha pátria é a língua portuguesa”
 Nomeio as palavras que no friso panteão fogem
Em que descubro as promessas por dizer, às avessas
do “se não digo nada de jeito” é no peito que desatino
De um amor que não prescreveu. “Eu ouvi ou ouvi eu”
E eu senti que em meu texto, no meu tempo
Existe o teu jeito e em minha voz o teu sotaque

Às vezes soa também a um hino alegre,
Soa a um riso solto, soa a um grito louco,
E troco a minha vida por um dia de escrita
troco minha vida por um mergulho de voz Lusa
E Nós, quase uma canção d’mar e por findar,
Do fado,” eles me doaram a voz que me dói”
Eu adorei ouvir tua voz e não tive sossego,
Mas tive vontade e, como diz Pessoa , por outra,
“E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz”

Porque “A minha pátria é a língua Portuguesa”

Jorge Manuel Mendes dos Santos / Joel Matos

Panfleto


Panfleto



Um dia, direi no que acredito
E virei a praça, e em publico,
Proclamar de um banco, o pensamento,
Escondido no bolso, deste casaco.

Olho nos olhos, estátuas de pedra
Dura, com vergonha, mordi lábios meus,
Senti-me profeta d’algibeira,
Vergastado, num qualquer Altar, sem Deus.

E eu mentiria, se meu protesto,
Não fosse do meu peito, panfleto,
E d’alto gritado, como quem diz:-pára,

“Parem de cavar um poço fundo,
Entre o deles e este nosso mundo,
Ou a voz dos muitos cedo será”





Jorge Santos

Hendaye/Candanchú 4 dias e meio a pé

Sonho ou pesadelo


Tudo Tudo Tudo



Quanto roço se transforma em limo,
Faça o que faça, errei na farsa,
Se, até de mim me tornei sinónimo,
Fosso e palco de uma mesma peça.



Realço o facto de só continuar
Caminho por medo, daquele escuro,
Do lado escabroso, no ir,nã’voltar,
Da cova que, d’ver tremo e esconjuro.



Limei d’mil arestas, senti no casco
A rudeza do martelo e do maço
Só o facho, acarreto por engano



Numa daquelas vielas paralelas
Em que as moradas são, nem caiadas,
Nem, de vê-las, vi despertar meu sono.





Joel Matos

Free Tibet







Takelamagan Shamo 1




" --Desde as antigas cidades de Taskent,Kashgar e Samarkand pelo Tajakistão e ate ao deserto de Taklamakan transportaram-me os movimentos ritmados dos camelos, como berços de bossas, enquanto os sons gluturais ,quer dos homens como dos animais ,me embalaram lentos como navios ,pelas noites caladas ,parando apenas quando o sol martelava implacável a bigorna do deserto."
mãos abertas , em concha , agradeceu , inclinando a cabeça e continuou dizendo:
--"Jo, sou eu baptizaram-me assim nem eu sei porquê, talvez por serem as primeiras letras do nome de meu pai , era um homem pequeno simpático e afável que gostava de charadas,sorrisos e jogos de palavras, pelo que ficou o gosto de escrever , viajar e pouco mais, talvez a teimosia, nisso somos parecidos... penso que sim"
"--Vivi no campo , num sitio completamente diferente deste , dificilmente conseguem imaginar a pequena casa e a escola que ficava longe, mais de sete quilómetros mas a ida e vinda a pé era um acontecimento diário e que ansiava quando em aulas.
As estradas eram pouco frequentadas , quase só por mulas e burros que vinham vender hortaliças e fruta á praça , pelo que as carroças serviam muitas vezes de transporte, sabia bem o ram ram da pequena odisseia escola casa ou vice-versa, alguma conversa a meio caminho com o condutor ou o cantoneiro que se esforçava mas pouco , por manter as bermas limpas de ervas,foram tempos bons que me fizeram sonhar”

Falava a custo , com gestos largos e as palavras que sabia ,olhando as estrelas de uma noite sem lua e o rosto dos seus anfitriões, envelhecidos pelos anos e pelo sol,estes , seguiam a narrativa por não terem nada que fazer , alem de avivar as chamas da pequena fogueira , feita com os poucos arbustos que teimavam em viver na desolação,o chá quente,forte e muito doce servido nos pequenos copos de vidro grosso , aumentava a sensação de bem estar sonolento que sentia.
Aberta ao lado a pequena tenda amante e confidente de muitas viagens convidava ao descanso.
"Iyi Geceler" despediram-se com boa noite ,eram Turcos com mercadorias para trocar noutras cidades,talvez Turfan,no Gobi ou Xi´An ou mais a sul , em lhasa no Tibet.

Há muito tempo que tinha abandonado os lugares onde nascera , percorrendo toda a Europa, indo até ao Bósforo em Istambul e depois mais além , deixando para trás as montanhas de Elburz e do Pamir,tudo o que o ligava aos costumes do seu país , ele era agora um deles,dos nómadas perdidos em oceanos de dunas .

No fundo do albornoz , reclamando luz , encontrava-se um livro manuscrito , indecifrável e um mapa que lhe havia sido oferecido por um velho.

Não compreendia aquela escrita enigmática , mas estava no rota certa a caminho de Lhasa como prometera ao ancião.
também como prometera teria de fazer o caminho indicado no velho mapa , o dos nómadas e das rotas da seda , os caminhos ancestrais dos seus antepassados.
Segundo ele só assim teria acesso aos ensinamentos ou verdades presentes nos manuscritos quando decifrados.

Ao acordar , na madrugada tinha sido abandonado sem um adeus pelos companheiros de poucas falas da noite anterior , mas estava habituado a gente de poucas palavras,afinal também o seu pai era um homem de poucas palavras ,confiava mais em pessoas que falassem pouco.
Tivera um vez um amigo de viagem que lhe disse ser vendedor de palavras,como saudade por exemplo.
Talvez ele ainda não tivesse vendido palavras por estes lados,quando o visse dirá-lhe-ia,pensou Jo.

A senda revelou-se íngreme a partir daí,deixando para traz o deserto , encontrava-se no coração de florestas de cedros do libano e muitas árvores milenares que lhe ofereceram sombra durante as hora mais quentes do dia,as aldeias distavam varias horas se bem que não importasse , porque depois das dunas , sabia bem passear lentamente os olhos por tanta verdura.

Semi-deitado numa bicicleta atrelada a uma mini caravana veio ao encontro dele um ciclista pedalando muito lentamente devido ao peso,rosto e corpo magros como um cadáver, da bicicleta pendia uma concha , pelo que resolveu perguntar de onde vinha:
--sou zé do pedal mas mais conhecido por Andorinhão.
--Venho de Santiago
Respondeu uma voz timbrosa com sotaque do brazil.
pensou Jo como o mundo se tinha tornado pequeno ,o que faria por aqui um brasileiro de bicicleta vindo de Compostela.
--Vou para a cidade de Kashgar ,para lá , continuou dizendo e apontando na distancia.
--Escrevo enquanto pedalo disse apontando um mini gravador preso ao guiador ,tinha a vida toda para pedalar,já tinha ido do Rio a new York de barco a pedal e tencionava atravessar o Brazil em cadeira de rodas. ( 
www.zepedal.com.br)

Ofereceu-lhe da sua comida e beberam chá á entrada de um pequeno lugarejo , num casebre escuro com um nome sugestivo , "Taberna Vendaval,"
Pendiam nas paredes sujas quadros dos mendigos famosos do sítio , pintados por um artista da aldeia .
Separam-se com um abraço para se perderem de vista sob uma ponte de madeira á saída do grupo de casas ,perseguidos sempre por muitos cães.
Talvez estes cães ainda não soubessem que os primos constavam no menu em outras aldeias .

Não sabia Jo que, mais tarde, sem como nem porquê ,nem os cães ladrariam á sua passagem ,como se o ignorassem ,ou se tornasse invisível a eles .

Karim o barbeiro de Kulun 2







Os primeiros dias primaveris espreguiçavam-se por entre os altos picos e os sinuosos trilhos pintados em vários tons de verde que Jo desejava não mais acabassem .
Passou por centenas de aldeias sossegadas , nas montanhas de Kunlun , as portas de madeiras grossas e velhas das casas , abertas de par em par , davam noção de segurança e tranquilidade a quem passava.
Homens mais e menos novos , agachavam-se ao longo dos caminhos , em longas discussões muito gesticuladas ,“bom dia e boa viagem amigo, Deus te acompanhe”……. Diziam-lhe ,continuando as calorosas conversas.
Nos campos e florestas , mulheres de todas as idades realizavam trabalhos pesados mas sem pressas, carregavam às costas feixes e filhos bebes , enxugavam as testas do suor com as costas da mão.
Junto a uma ribeira cintilante como cristal , perto da aldeia de Atush na província de Xinjiang , região de Kizilu Kirghiz ,enquanto tomava um merecido banho , foi surpreendido por um grupo de mulheres jovens , usavam o local para lavar roupa, ouviu risos e olhares furtivos enquanto se vestia rapidamente.

Sem falsos melindres e faces descobertas , uma vez que os homens estavam fora de vista , foi convidado a partilhar o pão espalmado , tradicional e muito saboroso , do seu almoço.

Mais uma vez teve de contar quem era, que o apelidavam de Jo , tinha partido há muito de um local bem diverso deste, passado por regiões estranhas e mágicas, viu curiosidade em grandes olhos escuros, lagos sem fim como nunca tinha visto, chegavam tão fundo na sua alma que sentiu um arrepio e vontade de fugir para ainda mais longe.

Tinha cabelo negro , comprido e ondulado voando com o vento e o pescoço longo assentava num corpo ágil e harmonioso que se pressentia sob o vestido quase transparente.
Chamava-se Zahas significava o mundo , que queria conhecer,era professora.

Perguntou-lhe , com um largo sorriso se o podia acompanhar
(o acompanhar saboreou-o ele mais como fuga)
Sentiu-se tentado , mas com bons modos e um manear lento de cabeça , rejeitou a companhia.

Não só empreendia uma peregrinação solitária , mas também uma espécie de castigo ou penitência pelo que tencionava continuar sozinho.
Ela pediu-lhe então para ficar uns dias e conhecer a família o noivo Karim (o nobre), barbeiro de profissão e a sua linda aldeia.

Não havia dúvida que a aldeia era linda, já com mais características das aldeias chinesas que kirzigues que me tinha vindo a habituar , ate então.

Teve oportunidade , durante o tempo que passou naquele lugar encantado de conhecer as gentes da aldeia, simpáticas e atenciosas e Karim, homem curioso que ambicionava conhecer tudo, viajar e escrever mas que jamais sairia daquele lugar, constituiria família com Zahas,

provavelmente secariam os sonhos , tal como poças de água ao sol de verão mas seriam felizes, esqueceriam eles , que ele alguma vez tivesse passado por lá ?

Todos os dias Karim corria de casa para o trabalho e de volta a casa, mirava as estrelas e as mudanças de estações , dizia-lhe que gostava de sentir o vento falar-lhe aos ouvidos e acariciar o rosto ao correr, pensava melhor quando corria dizia-lhe ele, talvez ainda viesse a escrever esses mesmos pensamentos.

Era um indivíduo estranho e nervoso , se bem que o compreendesse melhor ele , que os vizinhos ,a noiva ou mesmo ele a si próprio.
Ultimamente tinha-se dedicado a dançar, tentava aprender a relacionar harmonia física, musica e alma.
A mãe de Zahas tinha acabado a viagem , ainda nova e o seu pai também tinha chegado ao fim á pouco, sendo ainda grande a dor da separação, restavam-lhe um irmão corpulento Musthafa, despojado e sonhador e uma irmã Nuria insegura e desligada.

Os serões e jantares soavam alegres e bem-dispostos, misturados com álcool de arroz, Karim quando bebia ficava eufórico e conviviam todos numa concofonia agradável até tarde.

A chuva que caía deixou-o pegado ao alpendre de madeira da casa , estava quase dormindo quando um beijo de Zahas o despertou.
Sabia que tinha de se despedir até sempre e quando se pôs ao caminho já não mais olhou para trás, não fosse arrepender-se.
Só de longe, de uma montanha próxima viu a aldeia na distância.

Pensou mais uma vez que gostaria de ver o filho de Zahas e Karim o barbeiro ,mas não voltaria ali mais .
Queria chegar antes do inverno a Tanshan,porque seria difícil passar os rios com grande caudal nessa altura do ano,.
Ao longe , do alto das montanhas ainda avistava a planície de Tarim ,longínqua como os tempos e as vidas passadas.

Acontecia com ele algo de estranho , conhecia já a criança que iria nascer dessa união, sabia-lhe o nome e tudo sobre ele, não quis pensar mais nisso .
Cada dia que passava , tudo em seu redor se ia transformando lentamente .

A própria natureza, os sons das árvores o cantar dos pássaros e o vento lhe segredavam, o embalavam e impeliam nalguma direcção. por qualquer razão desconhecida.

Montanyes de Llum 3





As etapas seguintes tiveram lugar em trilhos apertados
Num sobe e desce ritmado, sempre evitando gentes e os cornos dos pesados iaques carregados com sal junto a precipícios de cortar o fôlego.
A terra poeirenta de tantas passagens desfazia-se sob os seus pés, arrastando-o com ela por algumas dezenas de metros para baixo em direcção ao vazio, no esforço por se manter estável agarrava-se as pedras e arbustos.

A travessia dos muitos rios , eram feitas preso a peles de cabras , cheias de ar ao sabor da corrente ou puxado com cordas da outra margem, tornava-se difícil progredir mas algo lhe dizia que teria de chegar antes do Inverno a Lhasa.

Os sons dos animais , misturados com o “Om mani padme hum” dos peregrinos que se prostravam sucessivamente no pó , ecoavam pelas estreitas e labirínticas curvas do rio.

A zona de Thisha Tsang para onde se dirigia assemelhava-se a um organismo vivo, vales viçosos estendiam-se como tentáculos irrigados por canais cada vez mais estreitos ,onde cresciam rododendros, azáleas, magnólias e árvores de fruto , rodeadas por searas de centeio , no fundo de montanhas áridas.

Tinha passado a fronteira com o Tibete há já vários dias, evitando os principais acessos e as autoridades ocupantes chinesas, misteriosamente entendia bem todos os dialectos reconhecia locais, conhecia caminhos e pessoas que nunca tinha visto.

-Muntanyes de Llum

Disse-lhe em catalão um sujeito de tez ocidental apesar de muito queimado pelo sol, curvado e com vestes de monge cor de vinho e açafrão,.
Apontou jo e as distantes montanhas luminosas já além do planalto Tibetano; caminhou decidido ao seu encontro mas continuou sem mais nada dizer
chamava-se Pepe, sabia-o ainda antes de o encontrar, sob o braço levava o mantras que iria recitar vezes e vezes sem conta nalgum retiro solitário.
Jo ficou parado admirando o maravilhoso panorama de montanhas cobertas de neve , como alvos lençóis enrugados ao sol.

Próximo e dissimulado na paisagem, sobre uma colina coberta de tsi-tog, (flor endémica do planalto tibetano) um convidativo mosteiro, parecia adormecido por séculos de austera contemplação, para aí se dirigiu orientado por sons monocórdios de vozes humanas rezando misturadas com o som estridente de símbalos, tambores e tubas.

Sobre uma grande porta vermelha com adornos dourados estava escrito Mosteiro de Samye e Trono do venerado Pachen Lama, sede bem-vindos.

Entrou e foi como se sempre aí tivesse estado, a sensação era sentida também pelos monges que o esperavam e o receberam com grandes demonstrações de carinho e amizade.
Deixaram-no descansar da jornada numa cela previamente preparada, deram-lhe vestes limpas de monge para substituir a chuba (veste tradicional tibetana com grandes mangas) rasgada e suja que vestia desde que chegara ao planalto, disseram-lhe que o esperavam no grande átrio do mosteiro que estava magnificamente decorado com bandeiras de oração, tapeçarias pesadas e paredes pintadas com bodhisattvas e budhas.

Já reconfortado , sentou-se nos pesados bancos de madeira junto a quatro monges gelugpas que estavam comendo tsampa (manteiga de yac com farinha e cha ) e momos de vegetais, bebendo Bö-cha (chá tibetano com manteiga de yac) enquanto no chão um mandala muito colorido era executado em sua honra.

Um dos homens, Tsharing day (vida longa ) serviu-lhe , com grande destreza ,dada a falta dos dedos das mãos, um copo gigantesco de chang ou cerveja tibetana e contou-lhe enquanto bebiam devagar como tinha subido os catorze picos das montanhas de luz, que sentia profundamente a falta de dois amigos que tinha deixado para trás nessas montanhas sagradas.

Tinha sofrido queimaduras também na cara e no nariz mas disse-lhe não se importar devido ao amor que sentia pelo mundo, à fé inabalável no Ser Humano, todo o sofrimento seria recompensado, seria o seu tributo.

Os dias no mosteiro seguiram-se pacíficos e rituais, aprendeu (cham) dança ritual tibetana com Dyhana, simpática monja do mosteiro e o magro e temperamental egípcio Jan ,dançavam ao som de longas trombetas , tambores , címbalos e durava dias até entrarem em transe , encarnando espíritos malévolos e entidades protectoras.

Nadava frequentemente no lago turquesa de Manasovar-tso com Pepe, bom nadador apesar de gordo e pachorrento.Retirado numa pequena gruta ouvia os pensamentos ao som de cascatas e dos inúmeros pássaros.

Lembrou-se do velho manuscrito , retirou-o da mochila, conseguia agora decifrar facilmente tudo apesar de ser em sânscrito .
Era espantosa a facilidade com que lia e interpretava aquela escrita que via pela primeira vez.
contava a viagem que tinha feito, a continuação da mesma , o próximo encontro com o sábio Milarepa em shang-ri-la, nas montanhas luminosas de Kailsash .
A chegada a Lhasa ,onde o esperava Shri Devi (protector do Tibet ) ,estava tudo descrito, até os seus pensamentos mais profundos, como podia alguém há muitos e muitos séculos , tudo saber sobre ele e a sua demanda .

Diariamente aumentava o seu poder de decifrar escritas, compreender línguas e dialectos, ouvir pensamentos ou ver entidades cavalgando no vento e animando a natureza, como Tara nos 21 diferentes aspectos que apresentava, ou Avalokiteshvara de mil espadas nas tempestades poderosas sobre os vales e montanhas, sentia próximo o despertar.

Estava escrito,
Agora restava-lhe abandonar o retiro e partir na direcção que lhe apontara Pepe quando chegara, as montanhas de Luz.
Acompanhou-o durante algum tempo, era Medico e continuava a estudar pelo que teria de regressar depois de uma semana, o suficiente para aprender mais sobre beleza ,a da construção humana como com Tsharing ,o sacrifício ou com o barbeiro Karim o momentum e a imaginação com a esposa Jahas e O´Briant seu filho,a partilha ,Dhyana a simpática professora de dança ritual e jan,o egípcio (Cham) a harmonia ,com o Zépedal o desprendimento e enfim com todos os bodhisattvas e sadhus pela vida fora, pai e mãe ,musthafas e Nurias .

A pensão Paraíso de Futi Sherpa foi o local de despedida de Pepe, Futi era esposa de Tenzing , o primeiro homem a subir ao Qomolanga ou Sagamarta , a montanha mais alta da Terra , ainda hoje em dia todos os seus filhos , netos e bisnetos fascinados pelo brilho a homenageiam entregando-lhe a vida.

Um velho sherpa cego e de longas barbas brancas falou-lhe, curvando-se e juntando as mãos juntas em sinal de respeito.

- Namaste venerado Gautama o que fazeis por aqui tão longe de Lumbini, de vossa casa?

Disse-lhe que estava enganado, não era quem ele pensava mas o ancião não acreditou :

- Meu Gautama, um velho cego consegue ver melhor que cem mil olhos de outros tantos mil exércitos de homens, fui abençoado pela tua presença e o meu samsara passou a um estagio superior .

Jo pousou gentilmente a mão sobre a cabeça do velho, deixou a pequena casa e tomou uma vereda , à direita do caminho por onde chegara que seguia para Shang-ri-la a montanha sagrada Kailash e a gruta do poeta e Magico Milarepa.

TIBET - nó infinito - 4






Começou por avistar o monte Kailash desde a nascente do rio indus como uma grisalha cabeça de yeti .
Devido á mistura do gelo com a rocha escura das vertentes, aproximando-se, começa por vislumbrar bandos de abutres pairando sobre carcaças humanas , peregrinos prostrando-se no Kailash Kora e tentando completar as 23 parikramas ou voltas.

Na na face sul da montanha, cor de safira viam-se os sinais da luta de milarepa com naro bonchud ,as denominadas escadas para o céu.


Em damding donklang , este inicia a escalada para a gruta mas afunda um pé profundamente na margem do indus, (pegada (shabje) que será venerada por todas as gerações seguintes ).
O caudal do rio aumentara perigosamente e todo o cuidado seria pouco .
O mal em forma de dragão de três cabeças espreitava , teria de se apressar na difícil subida e alcançar protecção depressa , teve de retirar com as mãos algumas pedras que obstruíam a entrada, juntamente com as raízes de uma figueira dos Himalaias , de grande porte .

A gruta parecia uma catedral, pelo enorme buraco escancarado do teto jorrava luz ,que se projectava no chão e paredes vermelhas ,dando um tom vermelho alaranjado ao verde das urtigas que cresciam, e serviam de alimento a Milarepa.

No centro da sala onde o Magico Milarepa meditou por mil anos apenas restava;
O manto branco de algodão e mil repas de cotão saídas do seu umbigo , enquanto meditava, de Milarepa nem sinal, tinha desaparecido como por magia.

O som de Naga espírito da água tomando a forma de serpente tântrica , fascinou-o durante algumas horas até que esta , numa voz muito doce e suave o convidou a usar o cotão para confeccionar asas para que pudesse voar ate Lhasa
Chegaria ainda antes do Outono , como prediziam os Sutras e os oráculos , antes da escuridão e das das sombras inundarem a Terra , antes de Sinmo e outros demónios acordarem.

Prontas as asas, segue o curso do sagrado rio Bramaputra ate à nascente, no topo do shang-ri-la, dá um pequeno impulso e está voando sobre o mundo e todos os oprimidos sem esperança, as gentes sem pátria, sobre as vaidades e sonhos desfeitos, as tristezas e alegrias, já não é mais Jo mas Buddah ou sakya,como descrito nos sutras, acompanham-no
Chenresing vertendo lágrimas de compaixão e Tara nascida dessas lágrimas vertidas pelo sofrimento do mundo, pelo grande amor á humanidade.

Jahas gritou de alegria e dor nas míticas montanhas de kunlun ,enquanto saía de si um pequeno ser, chamar-se-ia O´Briant, o iluminado , ou o raio de luz, o choro daquela criança anunciou-se por montes e vales, atravessou oceanos, correu mundo, voou nas asas de aves e borboletas, pousou em flores, foi sementes e frutos de muitas cores.

Entretanto Buddha e As Duas Acompanhantes Sobrevoam o mundo três vezes , antes de pousarem no Chorten da luz infinita , no piso térreo do imponente Potalla em Llhasa ,entrando e virando a direita ,depois de passarem a sala da assembleia , onde já se encontravam reunidas todos os Bodhisattvas , Buddhas e demais Entidades ,recitando os mantras e lendo em voz alta os sutras , que descreviam a Sua vinda.

Encontrarem Shri Devi , protector de Lhasa , montado num fantástico cavalo branco, este recita om mani padme hum , dirigindo-se a Avalokitshvara Chensing , patrono do tibet e Lord Buddah ,oferece-lhe os manuscritos do sábio Guru Rinpoche que dizem:

“Quando voarem aves de ferro e os cavalos tiverem rodas , o povo tibetano espalhar-se-á pela terra , ocupando o homem vermelho o seu lugar , mas chegará a hora , em que as lágrimas da compaixão , libertarão as nossas ruas da opressão , o povo do tibet espalhado pela Terra regressará , assim como , todos os povos oprimidos da terra serão libertados.”

Depois de lido isto em voz alta,como troar de mil trovões, todos os Bodhisattvas ,Buddhas e demais Entidades voltaram ao seu dia a dia , encarnando aqui e ali , outros seres humanos simples e despreocupados que encontraram no seu caminho.


Jorge sentou-se frente à Tv., Fazendo zapping , cansado do trabalho ,apenas conseguiu ver algumas imagens de mais um filme maçador de Bollywood , a tomada de posse de Obama e arrastou-se a custo para a cama , a semana seguinte seria de ferias .

Sentiu o ritmo nas pernas e a leveza do corpo correndo pelos Pirinéus fora antes de adormecer ,tinha uma vontade irresistível de partir .


Jorge Manuel Mendes Santos
http://namastibet.blogspot.com






jorge santos

Manhã Manhosa






Do torso e de meu poleiro sou manhoso e
De nuvens feito, sou traiçoeiro,
Infame até ao peitilho,
Nem de conto sou,(valho quanto valho)

E, do velho herege e falcoeiro nem vê-lo
Invejo ninfas ,e vejo pombos ,sou d'tombos,

Mas inspiram-me e pronto,todas e todos,
Mesmo os mortos,
No inferno deste tempo longo

Vejo um braseiro plano e um piano
O travesseiro , bolero bolano,

Não tem ,de pranto ,igual
Por ond'ando vulgo eu,  

E dano o mote  forte,
Em noite mundana. 

Minha pena rasgada de meu flanco
Na carreira curta , em de fim-de-ano ,

A minha' pena,è ser termo 

Ficarei por  aí sem poema 
Se m'apagarem a vela
E se m'desenterram em noite inverna
De lua-cheia.
Nas vastas terras de rua 

Em que declaro serem musas todas ,todas
As que minh'alma crua persegue 

Sendo , são todas , todas minhas
Sendo tantas são poucas sempre ,

São minhas manas,minhas manhas
E sendo  são belas ,(elas ,as blusas)

Porque sao ventos sao tempestades
As cavalgadas por onde me insurjo e fujo
Do meu ego se me persistem e perseguem nos trotes
Seja em brisa ou cavalos de vento
Ou voos de aves rasantes
Mas é alma minha sempre e não a vendo

Nem que me paguem nem que o garrote m'esmague
O farol o saleiro e os dedos por inteiro.



Jorge Santos

Florbela



Florbela


Nadas de eternidades, nadas às tonas d’água,
Tudo se afunda, neste t’mor posto em palavras,
Nos tons que me desarrumam, desta tua míngua,
Vestem-me o drama no eco de pressintas sombras.


Estendo um braço, d’outro grudado ao casco,
Fixo no rasto fedido, deste reles luto,
Em que m’iludo, é com ele que me espanco,
Co’meu cliché mastigado já e sem talento.


Vejo-me neste mundo-sem-ti , num fumo insonso,
Creio apagado o meu lume aceso
Nadas, ao luar nas dunas d’aguas , nas fúrias do mar,


Agonizo em fobia, enraizo d’vegetal,
Bela d’flor intemporal, voos de lástimas e cal
Pura, em que me emprestas, esse orgulho d’amar.


Jorge Santos