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Manhã Manhosa






Do torso e de meu poleiro sou manhoso e
De nuvens feito, sou traiçoeiro,
Infame até ao peitilho,
Nem de conto sou,(valho quanto valho)

E, do velho herege e falcoeiro nem vê-lo
Invejo ninfas ,e vejo pombos ,sou d'tombos,

Mas inspiram-me e pronto,todas e todos,
Mesmo os mortos,
No inferno deste tempo longo

Vejo um braseiro plano e um piano
O travesseiro , bolero bolano,

Não tem ,de pranto ,igual
Por ond'ando vulgo eu,  

E dano o mote  forte,
Em noite mundana. 

Minha pena rasgada de meu flanco
Na carreira curta , em de fim-de-ano ,

A minha' pena,è ser termo 

Ficarei por  aí sem poema 
Se m'apagarem a vela
E se m'desenterram em noite inverna
De lua-cheia.
Nas vastas terras de rua 

Em que declaro serem musas todas ,todas
As que minh'alma crua persegue 

Sendo , são todas , todas minhas
Sendo tantas são poucas sempre ,

São minhas manas,minhas manhas
E sendo  são belas ,(elas ,as blusas)

Porque sao ventos sao tempestades
As cavalgadas por onde me insurjo e fujo
Do meu ego se me persistem e perseguem nos trotes
Seja em brisa ou cavalos de vento
Ou voos de aves rasantes
Mas é alma minha sempre e não a vendo

Nem que me paguem nem que o garrote m'esmague
O farol o saleiro e os dedos por inteiro.



Jorge Santos

Florbela



Florbela


Nadas de eternidades, nadas às tonas d’água,
Tudo se afunda, neste t’mor posto em palavras,
Nos tons que me desarrumam, desta tua míngua,
Vestem-me o drama no eco de pressintas sombras.


Estendo um braço, d’outro grudado ao casco,
Fixo no rasto fedido, deste reles luto,
Em que m’iludo, é com ele que me espanco,
Co’meu cliché mastigado já e sem talento.


Vejo-me neste mundo-sem-ti , num fumo insonso,
Creio apagado o meu lume aceso
Nadas, ao luar nas dunas d’aguas , nas fúrias do mar,


Agonizo em fobia, enraizo d’vegetal,
Bela d’flor intemporal, voos de lástimas e cal
Pura, em que me emprestas, esse orgulho d’amar.


Jorge Santos

Nem Que

nem que me rotulem de travesso
que não abdico viver no rio solidão
e o disfarce me virem do avesso
(ainda assim)
nadarei na corrente e turbilhão.

jacaréu na panela d'agua quente
rei preto no tabuleiro de xadrez
serei tudo que o destino invente
e permita nadar na minha desfaçatez

ando barbudo de um lado e d'outro
desta cara de vagabundo matreiro
onde o mar barbeia e cria o mexilhão

fiz um sinal gigante na areia da praia
quando vi aparecer no longe uma sereia
mas ela não, não viu,fugiu da minha solidão


Jorge Santos

Feitiço da Terra

E, leve, o vento me deteve
E depositou ,devagar no areal,
Foi aí nesse vento Naval,
Que vim , p'ra qu'o mar me leve,
Ou me afogue nas praias de Portugal


Jorge Santos



Feitiço da Terra

A Vila de Coca não constava no mapa, lugarejo húmido e circular construído sobre estacarias na beira pantanosa do rio Napo, um afluente vigoroso do Amazonas e local onde um velho autocarro, cheio de galinhas e gente, regressava semanalmente, perante o alvoroço dos Quinchuas e estancava ruidoso em redor de um enorme pau, que servia também de porta-estandarte ao único militar equatoriano destacado naquela última fronteira.
Pressentia-se sempre o início das tempestades quentes que assolavam Coca com frequência, como um pesado pano desciam sobre o palco esfusiante de verde naquele perdido pedaço de mundo ao som de mil tambores e , quando subitamente paravam, restava apenas metros de água barrenta sob barracas velhas como jangadas em oceano aberto.
O baixar das águas era um frenesim de galináceos que corriam como doidos, bicando grandes vermes de todos os feitios na lama que chegava aos joelhos de quem se aventurava na rua.
Aos sons nocturnos não faltavam nenhumas notas musicais, estavam todas lá, e ao mesmo tempo.
Toda a floresta respirava vapor e cheiro a uma humidade constante que dilatava os poros e cansava o corpo.
Dormia-se as sestas em redes suspensas , mas somente até as crianças chegarem da missão católica , já sem a farda estrangeirada imposta pelos padres e chapinharem nus e felizes gritando alto nas águas quentes do rio.
Belén também era um nome estrangeiro,foi dado a uma menina Quinchua que nadava como os peixes , com os Botos brincava todas aquelas tardes encantadas, longos cabelos dourados como as águas do Napo com que se confundia nas noites de grande luar, parecia fazer parte dele.
Sem família, simplesmente apareceu e depressa cativou a simpatia de todos, com gargalhadas alvoraçadas muito semelhantes às vocalizações dos golfinhos que se ouviam por toda a aldeia.
Dizia que era filha de um boto do rio Pastanza e a mãe da aldeia de Belén , daí ter recebido esse nome em sua memória .Talvez pai e mãe voltassem uma noite de luar para a levar , suspirava ela.
As incessantes aguas e as estações desceram muitos rios com a confiança de sempre, Belén tornou-se mais bela e esguia e cada dia mais inseparável do rio e de um Amigo Aymara chamado mayo , jovem que nasceu mudo e vivia num mundo muito próprio, falava com as estrelas , o vento e a floresta, via o horizonte como ninguém mais por ali, tinha olhos verde profundo e a pele cor de terra, Chamavam-lhe feiticeiro e era inseparável do feitiço de Belen como a vida é inseparável da Terra.
Chegaram um dia os engenheiros e as grandes máquinas infernais, diziam que iam trazer o progresso, construíram estradas e barragens, Coca ficou fazendo parte do mapa turístico do Equador, construíram-se hotéis nas grandes árvores, a vila cresceu e esqueceram a sagrada simbiose com a mãe natureza.
Sem aviso numa noite quente de luar Belén desaparece, viram-na ao longe na curva do rio, distanciando-se no luar, cabelos dourados em turvas e turbulentas águas.
Mayo perdeu o verde nos olhos, tornaram-se vagos e cegos, a pele ficou seca, parou a chuva e o rio secou, deixaram-se de ouvir os botos , os caimões na noite e as aves na floresta.
Mayo deixou de falar com o vento e as estrelas, deixou de ver o horizonte verde, agora todos tinham acesso a altas torres de comunicações mas mesmo assim não liam os sinais da Terra, deixaram de compreender o feitiço de mayo.
Mayo deixou-nos a todos, com a tristeza ,os profundos olhos verdes secaram, a linda Belén não mais foi vista,os cabelos dourados, nadando na distancia do rio Napo, ao luar….
Talvez tenha encontrado o pai ,que vivia no Pastanza e a mãe de Belén e ainda nade no que resta do grande Amazonas.
Talvez não, porque Mayo e Belén eram inseparáveis, como o feitiço da Terra e o encantamento das águas…


J.Santos

Caminhada

Terra á vista



Uma tábua do veleiro "Tarou" 
Partiu-se e naufragou no Rio ,
foi em Mês DE Janeiro Impassível,
o mar era rijo,
e o espanhol "malfeito" 
que era  contramestre , 
mandou pregar o traquete no garupes ,
a jorna faltava e o rancho estava rançoso,
marujos sem pão rabujam,
amofinam-se e amotinam-se no convés 
como convém ao corsário corso ,
sobe o lais no mastro e a mezena panda inflada ,
ordena o contramestre coxo que o amotinado MARIJO 
seja posto no mais alto mastro que no barco haja 
,mas não é que o marijo chegando a verga mestra grita 
esfregando o olho cego porque do outro nada via,
"Terra à Vista"



Jorge Santos

Juntei dobras



Jantei sombras de sol,
Bebi de lua , metamorfoses,
Repousei em negros fortes
De castelos , sem lençol
De fantômas ,dormi d'vela,
Velei dragões , drenei serões,
Bebi de todas as taças,
Paixões e ressacas,
Juntei , as todas,
No és-de-luz-feita,
Que me doura.



Jorge Santos

Teima

Teima , teima,
Naperon na mesa,
Torce o tema,
Vinte lobos de fresa,
Nem por isso infonema,
Teima até ao umbigo,
Jantemos de vela acesa,
Serás o meu castigo,
Mas teima , ate ao pescoço,
Como quem me t'ama
E num esforço t'beija tesa
Teima como amêjoa
Flor e cereja
Teima em geleia
No chão palco vão
Na galeria e na banheira
Teima á minha beira
Na minha Escuna d'vela
Na branca esteira
D'ondas grossas
E neste planeta louco
Teima um pouco


Jorge Santos

O "Da chave"


Sou do D'avido o Ferreiro
Que amanheço cedo neste
Prurido desconhecido
De quem não conheço
Sou o da chave fechado
E o do escadote caído
Se ser assim dividido
No que esta-de-certo
Versos do só-dá-medo
Sou eu delfim vaqueiro
D'enredo e folhetim
Capim e sargaço ,vespeiro,
De capa-e-s'pada assino.
Sou vizinho do tanoeiro
E Jorge Santos a temp'inteiro


Jorge Santos

Maré Mingua



De beira e de pão,
De hasa ferida,
Nariz no chão
Saem-me da lingua
Palavras sem guarida,
Sendo,são o meu quinhão
Sinto, da sina lida
Mais do que tenciono
De cor ,nada
Mas de f'rida
Tombo








O nome ver-te ,em cor d'irada


Nas paredes sorridas ,pintadas
Seria verde cor'de s'trada
D'ela quasi saí ,prostrado
Dum mote todo amantamado
Numa noite ,ela queria ver-te,
N'outra ,nada,nada.






Jorge Santos